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domingo, 31 de maio de 2020

A vaca foi pro espaço!

Qual a relação entre a cifra de cem mil mortos pela COVID19, o assassinato por sufocamento de um homem negro nas mãos de policiais brancos em Minneapolis e o envio ao espaço pela SpaceX de um foguete tripulado?
Os três fatos aconteceram nos Estados Unidos. Todos os três, no curto intervalo de uma semana. Todos ocuparam espaço considerável na mídia internacional. E, como não poderia deixar de ser, no noticiário brasileiro. Um comentarista televisivo ressaltou a importância do lançamento do Dragon Crew: possibilitar que, em um futuro muito próximo, qualquer pessoa possa viajar para o espaço. E concluiu sorridente: “Reserve já o seu bilhete!”
Fiquei pensando cá comigo: Será que George Floyd, o homem negro que foi sufocado pelos policiais brancos, já teria ele reservado seu bilhete para um passeio espacial a bordo da cápsula do Elon Musk? Será que os cem mil cidadãos norte-americanos que morreram de COVID19 também já haviam comprado seu bilhete para a viagem orbital?
Na certeza de uma resposta negativa me pergunto: que país é esse que se permite o luxo de programas de turismo espacial privado financiado com dinheiro público, enquanto cem mil cidadãos morrem por uma “gripezinha” e a lei e a ordem treinam policiais brancos para assassinar homens pretos que se sublevam contra mais um dos tantos atos de racismo institucionalizado?
Esse país é o líder da civilização ocidental. Líder econômico, político, cultural e moral. Se assim é a liderança, o que não seria dos que por eles se deixam liderar? O neo-racismo brasileiro está passando da versão “democracia racial” para a simbólica supremacista da Ku Klux Klan com suas túnicas brancas em marchas noturnas à luz de tochas. E não é numa cidadezinha do Alabama. É em frente ao Supremo Tribunal Federal. E nada acontece... Assim como nada acontece com aqueles que, no mesmo colonialismo racista, vêm a público brindar com copos de leite....branco! Já as forças da lei e da ordem executam o lado prático: de cada cem pessoas assassinadas pela polícia, oitenta são negros. Proporcionalmente, superamos os Estados Unidos. Assim como, em breve, sempre proporcionalmente, também superaremos os Estados Unidos no número de mortos pela COVID19. E, coisa que nos Estados Unidos nunca aconteceu: temos, no Brasil, um astronauta como Ministro da Ciência e Tecnologia. Sua maior habilidade: vender travesseiros de uma marca fake que imita o nome da Agência Espacial Norte-americana.
O Ocidente está doente. O Brasil está febril. E não é apenas a COVID19 que nos enfraquece. É a nossa civilização que perece. Foi pro espaço.  Foi pro brejo. Precisamos urgente de uma vacina contra o coronavírus. E de anticorpos de sensibilidade, empatia e solidariedade para enfrentar a doença do racismo, do egoísmo e da desumanidade.
Que a Festa da Santíssima Trindade, o Deus-Amor que é comunidade, nos inspire e fortaleça na conversão da cultura e da sociedade.
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Baixe AQUI o áudio desta reflexão para divulgá-lo livremente em suas mídias.
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segunda-feira, 18 de maio de 2020

A presença de quem já partiu

Há muitas formas de sair de cena. Há aquela bem educada em que se pede licença, despede dos presentes e toma o rumo da porta abanando para os que ficam.
Há a saída à francesa: de fininho, sem que os presentes se deem conta. Pode ser falta de respeito. Ou pode significar discrição, desejo de não atrapalhar a alegria e a festa que segue.
Há a saída estrepitosa daquele que sai causando. É o correlato do chegar chegando, fazendo barulho, chamando atenção para ser notado e se impor aos demais.
Também há a saída forçada, não desejada, resistida, daquele que quer ficar, mas é expulso, jogado para fora, de forma violenta ou com subterfúgio. E há a saída disputada em que alguns querem que a pessoa permaneça e outros querem excluí-la.
E há a saída não realizada, a saída incompleta, não acabada, inconclusa, não finalizada em que a pessoa que sai, mesmo que não mais esteja, continua presente. E, se procuramos por ela, mesmo que não a vejamos, sabemos que aí está. Esta é a saída mais dolorosa. É a que mais dói porque nunca termina. É uma saída no particípio presente. Essa forma verbal que na língua portuguesa deixou de ser ação e passou a ser qualidade da qual ninguém pode desimpregnar a quem foi com ela marcado.
É a saída dos mortos que nunca morrem. Seja porque não pudemos deles nos despedir de forma digna e respeitosa, como acontece hoje com os mortos por Covid19, subtraídos ao carinho e pranto dos familiares e amigos antes mesmo do último suspiro e enterrados às pressas em uma vala anônima. São os povos indígenas que, desde a chegada dos europeus até hoje, continuam sendo desaparecidos contra a sua vontade e, para não deixar em paz a consciência dos que os matam, continuam teimosamente a resistir com sua incômoda presença. Ou os presos, torturados e mortos pelas ditaduras e que tiveram seus corpos desaparecidos, mas sua memória está viva naqueles e naquelas que seguem seu sonho de uma sociedade justa, fraterna e feliz.
E há os mortos que nunca morrem porque sua existência foi de tal modo intensa que já não cabia somente neles. E a vida que eles carregavam e repartiam se expandiu e tomou conta de todos aqueles e aquelas que com eles tiveram a graça de conviver.
É dessas vidas que dizia Dom Oscar Romero: “Se me matam, ressuscitarei na vida do povo”. Não era uma frase vã ou pretensiosa. Pelo contrário: era o humilde reconhecimento de que, aquele que foi morto, ressuscitou e já não está presente como antes, continua vivo no meio de nós. Ele subiu aos céus, mas sua presença esperançadora é maior e mais forte que todas as ausências. E Sua vida, que vive em nós, nos impulsa a seguir fazendo o que Ele fez.
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