sexta-feira, 10 de maio de 2019
O desafio da unidade
O desafio da construção da unidade da humanidade e, nela, das religiões e das igrejas, é um dos grandes desafios de hoje. Para o cristão, esse desafio não é apenas uma questão política ou social. É uma questão de fé. Nós cremos num só Deus. Mas esse Deus, é em si mesmo plural. Por isso, os cristãos cremos que a unidade só pode ser construída no respeito à diversidade. A divisão só interessa àqueles que, do alto de sua posição social, lucram com a divisão dos fracos.
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terça-feira, 7 de maio de 2019
segunda-feira, 6 de maio de 2019
A INSUSTENTÁVEL PARRESIA DO PAPA FRANCISCO
Amor e ódio. Diante dele ninguém ficava indiferente. Por quê? Porque ele não passava insensível
ante os grandes problemas da humanidade que se apresentavam a seus olhos nos rostos, corpos e
mentes de pessoas concretas que com ele cruzavam pelos caminhos da Galileia. As multidões
ficavam encantadas com seus gestos de carinho, compaixão, cura e perdão para com leprosos,
endemoninhados, aleijados, cegos, surdos, velhos, crianças, mulheres, estrangeiros, mulheres
estrangeiras, mulheres prostituídas, viúvas... Até mesmo os ricos publicanos por todos desprezados
e os soldados romanos pelos judeus odiados encontravam nele palavras e ações de aproximação e
apelo à conversão para a justiça do Reino.
Para os fracos, suas palavras eram suaves e ternas e não lhes impunha jugo algum. Para os fortes e
poderosos, palavras duras e exigências que não pediam apenas a conversão pessoal. Iam muito
além. A conversão por ele pregada implicava no fim do sistema de exploração tanto dos poderosos
da terra como de seus superiores romanos. Aos judeus pedia a justiça do “Ano da Misericórdia”.
Aos romanos, que voltassem para sua cidade e deixassem o Povo de Deus livre para o culto a Javé.
Qual a diferença entre o “Ano da Graça” com o qual Jesus abriu sua missão e o “Ano da
Misericórdia” que marcou o início do pontificado do Papa Francisco? Nenhuma! Graça e
misericórdia são duas palavras para falar do mesmo amor de Deus que vence o medo das religiões e
impérios que massacram a pessoa humana. Jesus iniciou sua missão na periferia da Galileia, região
desprezada pelos judeus e temida pelos romanos como fonte de distúrbios e provocações. O Papa
Francisco foi a Lampedusa acolher os desprezados da Europa e do mundo. Jesus reuniu junto a si
desempregados, pescadores, coletores de impostos e mulheres para fazer deles os anunciadores da
justiça e da graça de Deus. O Papa Francisco se reunião com os Movimentos Sociais e proclamou
que a justiça é que nenhuma família pode ficar sem teto, nenhum camponês sem terra, e nenhum
trabalhador sem emprego. O Filho do Homem não tinha onde reclinar sua cabeça e enviou seus
discípulos sem mochila, com apenas uma túnica e um par de sandálias. O Papa Francisco recusou
desde o princípio e persiste em manter-se distante de palácios, roupas, sapatos, faustos e honras dos
príncipes deste mundo e da Cúria Romana. Assim como Jesus se recusou a condenar a mulher que
lhe foi apresentada como adúltera, Jesus, ante aqueles indiciados como portadores de pecado ao
mundo, o Papa lembra que Jesus é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e pergunta:
“quem sou eu para condenar?”
O Papa é amado e odiado por uma única razão: ele insiste em ser simplesmente um cristão. E seu
cristianismo não se resume à afirmação de uma pertença religiosa. Seu cristianismo é uma fé, uma
aposta de vida, total, absoluta e, ao mesmo tempo, cotidiana e performática. Assim como Jesus, ele
não apenas fala. Ele também faz. E seu agir, provoca amor e ódio como todos os profetas que antes
dele percorreram o caminho da Esperança que passa, necessariamente, pela cruz.
ante os grandes problemas da humanidade que se apresentavam a seus olhos nos rostos, corpos e
mentes de pessoas concretas que com ele cruzavam pelos caminhos da Galileia. As multidões
ficavam encantadas com seus gestos de carinho, compaixão, cura e perdão para com leprosos,
endemoninhados, aleijados, cegos, surdos, velhos, crianças, mulheres, estrangeiros, mulheres
estrangeiras, mulheres prostituídas, viúvas... Até mesmo os ricos publicanos por todos desprezados
e os soldados romanos pelos judeus odiados encontravam nele palavras e ações de aproximação e
apelo à conversão para a justiça do Reino.
Para os fracos, suas palavras eram suaves e ternas e não lhes impunha jugo algum. Para os fortes e
poderosos, palavras duras e exigências que não pediam apenas a conversão pessoal. Iam muito
além. A conversão por ele pregada implicava no fim do sistema de exploração tanto dos poderosos
da terra como de seus superiores romanos. Aos judeus pedia a justiça do “Ano da Misericórdia”.
Aos romanos, que voltassem para sua cidade e deixassem o Povo de Deus livre para o culto a Javé.
Qual a diferença entre o “Ano da Graça” com o qual Jesus abriu sua missão e o “Ano da
Misericórdia” que marcou o início do pontificado do Papa Francisco? Nenhuma! Graça e
misericórdia são duas palavras para falar do mesmo amor de Deus que vence o medo das religiões e
impérios que massacram a pessoa humana. Jesus iniciou sua missão na periferia da Galileia, região
desprezada pelos judeus e temida pelos romanos como fonte de distúrbios e provocações. O Papa
Francisco foi a Lampedusa acolher os desprezados da Europa e do mundo. Jesus reuniu junto a si
desempregados, pescadores, coletores de impostos e mulheres para fazer deles os anunciadores da
justiça e da graça de Deus. O Papa Francisco se reunião com os Movimentos Sociais e proclamou
que a justiça é que nenhuma família pode ficar sem teto, nenhum camponês sem terra, e nenhum
trabalhador sem emprego. O Filho do Homem não tinha onde reclinar sua cabeça e enviou seus
discípulos sem mochila, com apenas uma túnica e um par de sandálias. O Papa Francisco recusou
desde o princípio e persiste em manter-se distante de palácios, roupas, sapatos, faustos e honras dos
príncipes deste mundo e da Cúria Romana. Assim como Jesus se recusou a condenar a mulher que
lhe foi apresentada como adúltera, Jesus, ante aqueles indiciados como portadores de pecado ao
mundo, o Papa lembra que Jesus é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e pergunta:
“quem sou eu para condenar?”
O Papa é amado e odiado por uma única razão: ele insiste em ser simplesmente um cristão. E seu
cristianismo não se resume à afirmação de uma pertença religiosa. Seu cristianismo é uma fé, uma
aposta de vida, total, absoluta e, ao mesmo tempo, cotidiana e performática. Assim como Jesus, ele
não apenas fala. Ele também faz. E seu agir, provoca amor e ódio como todos os profetas que antes
dele percorreram o caminho da Esperança que passa, necessariamente, pela cruz.
sábado, 27 de abril de 2019
NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A PAZ!
Conforme a narrativa do evangelista João, as primeiras
experiências do encontro da comunidade com o Ressuscitado acontecem “no
primeiro dia da semana”.
Para nós, cristãos, acostumados com o calendário que consagra este acontecimento, o primeiro dia da semana é o domingo, dia consagrado de encontro com a comunidade e com o Senhor. Para os homens e mulheres que seguiam a Jesus, o primeiro dia da semana era dia de labuta, de volta às atividades diárias depois do descanso sagrado do sábado. O “primeiro dia da semana” dos judeus equivaleria à nossa segunda-feira. Foi nesse dia normal, profano, laboral, que Jesus se manifestou às discípulas e discípulos.
Para nós, cristãos, acostumados com o calendário que consagra este acontecimento, o primeiro dia da semana é o domingo, dia consagrado de encontro com a comunidade e com o Senhor. Para os homens e mulheres que seguiam a Jesus, o primeiro dia da semana era dia de labuta, de volta às atividades diárias depois do descanso sagrado do sábado. O “primeiro dia da semana” dos judeus equivaleria à nossa segunda-feira. Foi nesse dia normal, profano, laboral, que Jesus se manifestou às discípulas e discípulos.
A primeira experiência do ressuscitado foi a de Maria
Madalena junto ao sepulcro. Diferentemente de Pedro e João que viram o sepulcro
vazio e não ligaram o que os seus olhos viam com o que ensinava a Escritura,
Maria Madalena, ao ser chamada pelo nome, reconheceu a ressurreição de Jesus e
o cumprimento da promessa da vitória da morte sobre a vida.
A segunda experiência com o ressuscitado aconteceu na tarde
daquele primeiro dia. Desta vez, não apenas a Maria Madalena, Pedro e João. É
toda a comunidade dos discípulos e discípulas que é encontrada por Jesus. Com
efeito, eles estavam fugindo, estavam com medo de que o que aconteceu com Jesus
pudesse acontecer com eles também. Não seria absurdo se as cruzes que
sustentaram o corpo de Jesus e os corpos de seus dois companheiros, fossem
ocupadas para pender os corpos daqueles que com Ele tinham feito o caminho da
Galileia a Jerusalém. Aqueles homens e mulheres sabiam muito bem de que o
Império Romano era capaz. E sabiam eles também do que era capaz o povo judeu
espezinhado e humilhado pelo portentoso império. A cada ano, quase sempre no tempo
da Páscoa que celebrava a libertação da escravidão do Egito, grupos de judeus
tomavam em armas e manifestavam sua revolta e cólera atacando e, quando
possível, assassinando os soldados invasores. E o sangue – tanto judeu como
romano – jorrava pelos campos, colinas, montanhas, caminhos, vilarejos, cidades
e até na Cidade de Jerusalém e – para horror de todos – até no Templo Santo.
É nesse clima de terror imperial e ódio popular contra os
romanos e seus testa de ferro locais que Jesus se faz presente no meio deles e
lhes oferece a paz. Oito dias depois ele novamente se dirigiu aos discípulos e
discípulas e saudou-os dizendo “a paz esteja com vocês!” Por que tanta
insistência em Jesus nesta saudação de paz? Primeiro, como os textos mesmo o
explicitam, porque aqueles homens e mulheres tinham sido tomados pelo medo do
império opressor e seus sequazes nacionais que impunham a ordem à ferro, fogo e
crucificações. Segundo, por que havia a tentação, entre os próprios discípulos,
de revidar da mesma forma e fazer girar a roda insana da violência que se
alimenta da própria violência.
Hoje, no nosso contexto, todos sabemos como essa roda insana
funciona. À violência dos que muito têm para proteger-se dos despossuídos da
terra gera reações de violência que justificam mais repressão e morte. E isso
acontece tanto em escala global como em escala local e até mesmo nas relações
individuais quando a legalização da violência e de seus instrumentos de
execução é apresentada como única forma de se obter segurança.
Mas, segurança não é paz! A segurança é fruto do medo. E
mais do que eliminar o medo, ela o aumenta, pois, ao rodear-se de grades,
cercas, muros e armas, a pessoa ou grupo de pessoas reconhece que o suposto
inimigo continua vivo do outro lado do muro. Seja do lado de dentro ou seja do
lado de fora. A paz, a verdadeira paz, só é possível quando os muros forem
destruídos e as armas atrás deles ou encima deles postadas forem transformadas
em foices e arados, como já dizia antigamente o profeta Isaías.
Essa paz, no entanto, como bem o mostra o evangelista João,
só pode ser proclamada e realizada por aqueles e aquelas que foram capazes de
vencer a morte. É a paz daquele que fez justiça para com o injustiçado e assim
iniciou um futuro de novas relações onde não mais há opressores e espezinhados.
O que venceu a morte, não foi a força do Império Romano com
suas legiões armadas com lanças, flechas, carros, cavalos e o terror da cruz
justificado pelos juízes sedentos de vingança que aplicavam seletivamente as
leis, tanto judaicas como romanas, que não admitiam que um pobre camponês fosse
reconhecido pelo povo como seu verdadeiro líder. O que venceu a morte, foi o
humilde nazareno que passou a vida consolando os pais que perderam seus filhos
assassinados pelos guardas do Templo e pelos soldados romanos, as mães que
tiveram suas filhas raptadas ou estupradas pelo patriarcado factual e legal, os
doentes e leprosos expulsos da cidade para não contaminarem os saudáveis
cidadãos que tinham acesso à medicina, as crianças das ruas e praças dos
vilarejos a quem era negada a condição humana e podiam ser eliminados para não
enfeiar os passeis dos puros e limpos em direção ao Templo.
O que venceu a morte e podia proclamar a paz como modo de
vida, é aquele que ensinou que, repartindo o pão acumulado nos silos e
alforjes, é possível alimentar as multidões famintas e assim iniciar a romper o
ciclo da violência que degrada tanto aos que a exercem como aos que a sofrem.
Neste tempo pascal, deixemo-nos saudar com a paz que nasce
da justiça que liberta aqueles e aquelas que foram injustamente condenados
pelos poderosos que clamam discursos de pacificação, prendem, condenam e matam.
Não nos deixemos vencem pelo discursos de ódio e pela propaganda da violência.
Não deixemos que nos roubem a paz!
segunda-feira, 22 de abril de 2019
"NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A ESPERANÇA!"
“Não tenhais medo!” São
essas as primeiras palavras que, segundo o Evangelho de Marcos, Jesus diz às
mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé – que vão ao sepulcro para
ungir seu corpo. Jesus sabia que elas não tinham medo. Afinal, se tiveram a
coragem de levantar-se de madrugada para ir ao local onde o corpo do mestre
havia sido depositado e dar-lhe as honras fúnebres como mandava a tradição
judaica, era porque elas já haviam vencido o medo.
Mas, medo de que? Do
Ressuscitado? Do Anjo que se fez ver? Não... Nada disso! Fazer tal afirmação é
desconhecer o contexto em que se deu a morte de Jesus.
O medo ao qual Jesus se refere,
era o medo da cruz. Era o medo do suplício infligido pelas autoridades romanas
a todos aqueles que ousavam levantar-se contra o seu jugo dominador. Dentro do
“terror de Estado” imposto pelas tropas romanas sobre as populações subjugadas,
as crucificações, geralmente múltiplas – é sempre bom lembrar que Jesus não foi
crucificado sozinho – tinham como objetivo, além de eliminar um revoltoso,
evitar que outros seguissem no mesmo caminho. Para tal, utilizava-se o
instrumento de tortura inventado pelos persas, introduzido no Ocidente por
Alexandre Magno e otimizado pelos romanos: a crucificação.
O objetivo de tal método de
tortura e morte não era o de matar, mas prolongar pelo máximo de tempo o
sofrimento do prisioneiro. Tal macabro espetáculo – sempre levado a cabo de
forma espetacular - era um forte antídoto contra toda ânsia de contestação da
dominação romana.
Do ponto de vista romano, a morte
na cruz de Jesus foi um fracasso. Ele morreu rapidamente e seu corpo não ficou
exposto até ser consumido pelas aves do céu. Mesmo assim, haviam alcançado seu
objetivo: os discípulos, aterrorizados com o sucedido ao seu mestre, haviam
fugido e retornado aos seus lugares de origem. Os pescadores – seis dentre os
doze discípulos – haviam voltado ao lago para pescar. Mateus talvez tenha
retomado sua banca de impostos... Dos outros, não há notícias. Só as mulheres
ficaram ao pé da cruz. Só elas não se deixaram vencer pelo terror de estado do
Império Romano. Por isso vieram até o sepulcro trazendo os óleos aromáticos
para ungir o corpo de Jesus.
Dentro da tradição judaica, tal
gesto era um sinal de esperança. Ungir o corpo de um prisioneiro trucidado pelo
poder imperial, era afirmar que, acima do poder do tirano facínora, está o
poder de Deus que fará justiça para com o injustiçado. E império nenhum tolera
tal ato de sublevação simbólica. Nem os de ontem e nem os de hoje.
Jesus apresentara-se na sinagoga
de Nazara como aquele que veio libertar os aprisionados pelo poder opressor dos
latifundiários da Galileia, dos sacerdotes de Jerusalém e dos ocupantes
helenistas e romanos. As mulheres, indo ao túmulo para ungir Jesus, estavam afirmando
que, apesar do brutal assassinato cometido contra Jesus e suas esperanças,
continuavam a acreditar que a justiça para com os pobres da terra um dia será
realidade. Por isso, sua vitória sobre o medo tinha que ser reafirmada e
anunciada a todos os que estavam sobre a tentação de deixar-se vencer pela
desesperança.
Hoje e sempre, visitar e consolar
os injustamente aprisionados pelo poder opressor é um sinal revolucionário e de
esperança. Recolher e cuidar dos corpos e mentes trucidadas pela sanha exploradora
de um sistema econômico que vê as pessoas apenas como força mecânica e
intelectual para obter mais lucro, é confirmar nossa fé no Deus que não deixa o
seu justo na morte para sempre. Crer no ressuscitado, é afirmar a certeza da
vitória dos aprisionados e crucificados sobre os seus algozes.
E nesse contexto que, como nos lembra o Papa
Francisco, “o triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente,
estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as
investidas do mal.”
quarta-feira, 10 de abril de 2019
QUEM ESTIVER SEM PECADO DISPARE O PRIMEIRO TIRO
Todos os que tem uma mínima
familiaridade com a Bíblia cristã lembram com facilidade o episódio apresentado
pela liturgia no Quinto Domingo do Tempo da Quaresma. Trata-se da perícope de
abertura do capítulo 9 do Evangelho do João.
Numa mis-en-cène típica da tradição joanina, os fariseus e doutores da
Lei trazem até Jesus uma mulher flagrada em adultério. Diferentemente do que se
diz em muitos sermões, não se trata de uma prostituta, mas de uma mulher,
casada, que traiu seu marido com outro homem. O detalhe da acusação é que os
homens que trazem a mulher até Jesus viram, com os próprios olhos, a mulher
adulterando. Por consequência, viram também o homem com o qual a mulher estava
a adulterar. E, assim como prenderam a mulher e a levaram até Jesus, poderiam
também ter apreendido o adúltero e tê-lo trazido até Jesus para ser apedrejado.
Mas não! Eles trazem só a mulher... E a Lei de Moisés, no capítulo 20 do Livro
do Levítico, mandava que o homem fosse apedrejado junto com a mulher. Dentro da
mentalidade patriarcal e machista, era o homem o sujeito principal do adultério
e ele deveria ser apedrejado por primeiro. A mulher devia ser apedrejada junto
com ele. Mas por que apedrejar a mulher pelo simples fato de ter sido vítima do
adultério?
Essa interpretação é corroborada
pelas leis que se seguem e tratam da zoofilia. A Lei ordena que um homem que
tenha relações sexuais com um animal seja apedrejado. O mesmo para o caso de
uma mulher relacionar-se sexualmente com um animal. E a Lei, em ambos os casos,
manda que o animal também seja apedrejado. Pergunta-se: por que apedrejar o
animal? Não tendo consciência nem liberdade, o animal é, no caso da zoofilia,
vítima da perversão sexual do homem ou da mulher. Por que matá-lo, então?
A Lei não diz. Mas há uma
hipótese que considero plausível e se fundamenta no modo como Jesus responde à
questão a ele apresentada a respeito da mulher. A hipótese é a seguinte: as
vítimas devem ser eliminadas porque elas nos recordam dos nossos crimes. “Sem
corpo, não há crime”, dizia um velho princípio jurídico que vigorou por muitos
anos. Felizmente, a justiça, a duras penas, conseguiu superá-lo. Mas ele
continua vigente na mentalidade daqueles que procuram eliminar os corpos de
suas vítimas mortas ou, de forma mais comum do que pensamos, buscam eliminar as
próprias vítimas pelo ocultamento ou pela destruição física.
Jesus desmascara essa prática
quando, depois de rabiscar sobre a areia num suspense sem fim para a mulher e
para seus algozes, afirma calmamente: “quem não estiver em pecado, atire a
primeira pedra”. Certamente passou pela cabeça dos presentes os muitos
adultérios que cada um deles tinha praticado e que mereciam a morte antes mesmo
da lapidação daquela mulher jogada ao chão no meio do círculo de mãos
levantadas e armadas com 80 pedras. Ao assassinar aquela mulher – e Jesus com
sua fala calma lhes aponta isso – eles não queriam primeiramente fazer justiça
à mulher flagrada em adultério, mas apagar a memória viva de seus próprios
adultérios. A vítima é perigosa porque lembra ao assassino de seu crime. É
preciso eliminá-la porque sua presença fala por si mesma e é uma acusação
contra os crimes daqueles que se pretendem inocentes.
Pergunto-me nesta noite do Quinto
Domingo de Quaresma: qual a razão que levou a um grupo de militares a
assassinar, com 80 tiros, um pai de família que se dirigia, junto com sua
esposa, seu sogro e seu filho, para um chá de bebê na favela de Guadalupe. Foi
apenas um engano, como alegado imediatamente pelas autoridades? Um tiro por
engano, até poderia ser. Dois ou três, ainda vai... Mas 80 tiros por engano? E
ainda debochar da esposa que pede para que ajudem o marido que está a morrer? O
que fazia com que esse homem se tornasse um possível suspeito para a polícia?
Simples: ele era preto e estava num carro que não condizia com seu “lugar
social”.
No mesmo domingo, na mesma cidade
do Rio de Janeiro, um jovem de 17 anos foi morto, a tiros, pelas costas, por
policiais militares. E, se abrirmos os jornais e as páginas da internet,
veremos isso a cada dia. E veremos mais: comandantes das polícias, governadores
e até o Ministro da Justiça propondo a legalização e a despenalização dos
assassinatos cometidos por policiais, mesmo quando os mortos são inocentes e em
circunstâncias que não justificam tal violência. Tal “lei do abate” é
apresentada como uma forma de defender os policiais e suas vidas. Se tal
argumento tivesse base real, o Brasil não seria o país onde mais a polícia mata
e onde mais policiais são mortos em serviço. Se a polícia matar os supostos
bandidos fosse uma real solução, não haveria mais crimes no Brasil e nenhum
policial mais seria morto. Infelizmente, no entanto, a realidade nos mostra que
as coisas não são assim.
Fica então a pergunta: a quem
interessa tantas vítimas da violência, seja entre a população, seja entre os
policiais? Seguindo a lógica da fala de Jesus, surge poderosa a suspeita de que
a eliminação das vítimas – homens pretos das favelas e policiais na sua maioria
também pretos - interessa apenas aos que
produzem as vítimas: a pequena parcela da sociedade – os 5% que detém renda
equivalente à soma dos outros 95% - que, para manter seus privilégios e
requintes, precisa produzir milhões de empobrecidos e marginalizados e, para
defender-se deles, necessita a força das armas e da polícia.
quinta-feira, 4 de abril de 2019
Há esperança
Primeiro sábado de outono. Porto Alegre ensolarada.
Mas já não tão quente. Trânsito
tranquilo a caminho da Estação Rodoviária. Chego antes do tempo. Aproveito os
45 minutos que ainda me separam da partida do ônibus para ler. Me sinto um
extraterrestre em meio aos não muitos outros passageiros que também aguardam as
respectivas partidas. Sou o único – confiro para não estar equivocado – a ter
um livro mãos. Quase todos ocupam o tempo em teclar nas redes sociais ou ouvir
música. Alguns fones de ouvido se escondem no interior do pavilhão auricular.
Outros, escondem a cabeça de seus ouvintes.
Na hora marcada o ônibus parte. Pontualidade
brasileira com preços britânicos. Com duas passagens pagar-se-ia uma viagem em
carro para o mesmo destino. É o preço do monopólio construído em tempos de
governos liberais. Como de costume, durmo na primeira hora de viagem. Acordo já
para lá da Estrada do Conde que leva a Guaíba. Retomo minha leitura de “Sodoma”
e observo as ondas multicoloridas dos arrozais em ponto de colheita. O tema da
leitura e a paisagem se complementam. O tempo passa rápido apesar da pista que
teima em não ser duplicada desde o ano de 2014. Aqui e ali um pequeno sinal de
obras em andamento. Aparências para enganar eleitores incautos e cultivar
futuras expectativas que alimentarão novas eleições.
A platitude do terreno me remete ao ano de 1983
quando, pela primeira vez, fiz este percurso. Em meus então 17 anos, saia da
terra natal e me aventurava na distante Pelotas. Tempos de abertura e de
descortinamento de um novo mundo. A democracia ainda tardaria mas já vivíamos
os albores das Diretas Já, da Constituinte e do fim da ditadura militar. Tantas
lembranças destes tempos
Depois de duas horas e um pouco mais de viagem, o
tradicional paradouro: 20 minutos! Para minha surpresa, para usar o banheiro,
não há necessidade de passar pela loja e restaurante. E, surpresa maior, o
banheiro masculino está surpreendentemente limpo. Algo a louvar. Passo na
lojinha, compro uma água mineral e um pacotinho de torrões de arroz. Preço
dobrado em relação aos mercados urbanos. Não há opção. O preço do banheiro
limpo está embutido. Faz parte do jogo.
Como meus torrões e tomo a água sentado em frente ao
ônibus. Ninguém conversa com ninguém. Apenas os smartphones falam. Deixo o
tempo passar. Faltam poucos minutos e não vale a pena buscar meu livro. Do
restaurante sai calmamente um casal de idosos. Por volta dos 70 ou um pouco
mais. Não são passageiros do ônibus. Estão viajando de carro. Ao passar, o
senhor – mais velho que a senhora – olha a origem e o destino do ônibus.
Volta-se para mim e me diz: -- Vamos ver quem chega antes! Eu sorria e desejo
boa viagem. Os dois se encaminham em direção ao carro estacionado sob uma
sombra. Levam nas mãos plásticos e papeis para descartar na lixeira. Mas a
lixeira está virada e há papeis e plásticos espalhados pelo chão. Um olha para
o outro e, com a calma de quem não tem pressa para chegar ao destino, os dois
começam a recolher o lixo jogado pelo chão e acomodá-lo nas sacolas plásticas
que carregavam. O senhor vai até o carro, busca mais uma sacola plástica e
continua a coleta no gramado que se estende à beira da estrada.
Ao terminar o trabalho, recolocam a lixeira na
vertical, depositam nela as sacolas recheadas de dejetos por outros produzidos
e, sem pressa, dirigem-se ao pé da árvore. Tomam seus celulares e fazem fotos.
Ele dela e, ela, dele. Em seguida, um selfie os junta na mesma imagem. Tudo
acompanhado por sorrisos e gestos de carinho.
O ônibus parte. O carro vermelho de modelo popular
com o casal de idosos segue o ônibus com toda calma e tranquilidade. Quem
chegará antes em Rio Grande?
Em meus pensamentos
desejo outra vez uma boa viagem aos dois. E, mesmo que o ônibus corra mais e
eles continuem andando na vagarosa tranquilidade do bem feito, certamente eles
já chegaram ao seu destino.
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