segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A pós-verdade e o verdadeiro Messias


Todos os anos, o Dicionário Oxford escolhe “a palavra do ano”. Em 2016, a premiada foi “pós-verdade” (post-truth, em inglês). Não é uma palavra nova. Ela foi utilizada pela primeira vez no ano de 1992. Ao comentar a Guerra do Golfo para o The Nation, o jornalista Stive Tsich dizia que “nós britânicos, como povo livre, decidimos livremente que queremos viver em uma espécie de mundo da pós-verdade”.

Como os mais velhos lembramos, o fator decisivo para que os Estados Unidos, secundado primeiramente pelo Reino Unido e, em menor escala mas não com menos importância, pela União Europeia, invadissem e destruíssem o Iraque, foi a suposta posse, por parte de Saddam Hussein, de armas nucleares e químicas.

Membros de corpos diplomáticos de diversos países, especialistas em informações militares, jornalistas e o próprio governo iraquiano sabiam que tais armas não existiam. Mas a guerra foi feita, Saddam Hussein foi deposto, caçado e morto, o Iraque destruído e até hoje a região continua sendo um foco de instabilidade mundial.

Não foi a primeira vez que uma mentira foi usada para justificar uma guerra. Quase todas o são... Mas foi a cobertura dos jornalistas da CNN incorporados (embedded) às tropas americanas que garantiu o suporte de verdade informativa àquilo que nada mais era que uma mentira seletiva.
De lá para cá e com o advento das redes sociais, o fenômeno se ampliou em proporções gigantescas. Vivemos um mundo em que a verdade não é mais importante. O mundo da política é onde esta característica aflora de modo mais gritante. A capacidade de produzir mentiras na medida do gosto do público-alvo tornou-se a principal ferramenta para vitórias eleitorais. Não importa se algo é verdadeiro. Importa que afirme o que eu gostaria que fosse a verdade.

A expressão mais popular do fenômeno são as fake news que, infelizmente, ultrapassam o âmbito da política e chegam à ciência, à religião e ao cotidiano. No mundo da pós-verdade há pessoas que afirmam que a terra é plana, que não existe o aquecimento global, que as ONGs incendiaram a Amazônia, que o Papa Francisco é o anti-cristo, que as universidades públicas cultivam maconha em grande quantidade e que as vacinas fazem parte do plano comunista para dominar o mundo. A lista é infinita e absurda. Mas está aí!

Como evitar tudo isso? Na própria internet encontramos dicas úteis para identificar as fake news. Vale a pena conferir. É uma questão de saúde mental e social.

De nossa parte, queremos apenas recomendar uma dica dada por Jesus. Ele recém havia começado sua missão. João Batista estava preso. E o falatório sobre os dois percorria a Judeia e a Galileia. João, ouvindo falar de Jesus, ficou preocupado. Era verdade ou mentira aquilo que falavam a respeito dele? Jesus havia sido seu discípulo. Era seu conhecido. Mas, em tempos de fake news, não se pode confiar em ninguém! E João mandou perguntar a Jesus: “És tu o Messias que há de vir ou devemos esperar outro?”

Jesus respondeu remetendo à sua prática: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.” O critério é claro: para ser verdadeiro, não basta ser dito. O que valia para Jesus, vale para o mundo da pós-verdade. É preciso voltar ao critério da prática, da ação, da transformação da dor e do sofrimento dos doentes e dos pobres em alegria pela chegada do Reino de Deus.

Na sua ação está a verdade do Messias nascido de Maria na manjedoura de Belém em meio aos pastores do campo. Ele não foi notícia porque sua verdade não interessava aos poderosos de seu tempo. Mas ele foi e continua sendo Vida e Esperança para os sofredores deste mundo.
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Qual é o plano?


- Qual é o plano, pai?

- Melhor não ter nenhum plano, filho. Porque, se você tiver um plano e não der certo, ficará frustrado...

O diálogo entre pai e filho marca a sequência final do filme “Parasitas” dirigido por Boong Joo-hon. Um dramático e divertido filme que retrata as contradições da sociedade coreana. De um lado, uma família de quatro pessoas que mora numa mansão e goza de todas as benesses do progresso econômico vivido por aquele país do oriente nas últimas décadas. Por outro lado, outra família, também de quatro pessoas, que mora num subsolo imundo e tenta sobreviver das sobras da riqueza desta mesma sociedade. As duas famílias se encontram e, nos desencontros entre a extrema riqueza e a extrema pobreza, humor e tragédia se instalam.

Enquanto a família rica vive o sem sentido da abundância sem limite, na família pobre, o drama é pela sobrevivência do dia-a-dia. O pai, conformado com a situação, tenta sobreviver convencido de que não há como mudar as coisas. Para ele, não adianta sonhar. As coisas nunca vão mudar. O máximo que se pode alcançar é aproveitar o pouco que sobra da mesa dos ricos. Não há sonhos. Não há utopias. O filho, apesar dos constantes fracassos, continua a sonhar, a construir planos para tirar a família, incluído o pai, de sua situação de miséria.

O drama de “Parasitas”, tão bem narrado com a linguagem e a estética oriental, é similar ao vivido em muitas partes do nosso mundo tão desigual e onde somos convencidos a não sonhar. Vivemos o fim das grandes narrativas, o fim das grandes utopias. A ideologia que alimenta a sociedade desigual quer nos convencer de que a única satisfação possível é a de consumir. Para os ricos, o consumo abundante e sem limite. Para os pobres, o consumo das sobras e das imitações.

As frustrações do consumismo sem fim que levam ao desalento, à desesperança e, no limite, à morte, clamam pela redescoberta da capacidade de sonhar e de ter planos. E de não ter medo da frustração que o fracasso dos planos pode gerar em nós. É preciso aprender a conviver com a frustração e superá-las para continuar a sonhar, para continuar a ser humanos.

Para o cristão, isso faz parte do núcleo central da fé e se inspira no próprio ser de Deus. Ele criou a humanidade em um plano de amor e de convivência harmoniosa. Mas a humanidade lhe disse “não” e tomou outro caminho. Adão e Eva, instigados pelo tentador, rejeitaram o sonho de Deus. Mas Deus não desistiu de seu sonho para a humanidade, refez o seu plano para que o fim almejado fosse alcançado.

E, quando tudo parecia perdido, Deus, mantendo a fidelidade a Seu plano, se fez carne e veio habitar no meio de Deus. E o fez da forma mais surpreendente: encarnou-se no ventre de uma humilde camponesa de Nazaré. Ela, que se havia mantido fiel ao plano e ao sonho de Deus, é preparada para ser a habitação de Deus no meio de nós.

Algo inacreditável para os que habitavam “a casa de cima” da religião e da sociedade judaica. Mas crível sim, para Maria e por todos aqueles e aquelas que, como ela, não se contentavam com as sobras e queriam algo mais: queriam o encontro com Deus de forma plena e a realização da humanidade sem limite.

Que a festa da Imaculada Conceição nos ajude a redescobrir que Deus tem um plano para a humanidade. E que os eventuais fracassos não podem nos tirar a capacidade de sonhar com a plena realização de todos os seres humanos.
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A economia do dom


Natal e Ano Novo é época de dar e de receber presentes. Quase todo mundo faz isso. Há, no entanto, um pequeno equívoco nisso tudo. A data certa para dar presentes não seria essa. Presentes deveriam ser dados na festa da Epifania. Ou seja, no dia em que celebramos a ida dos reis magos até o lugar onde Jesus nasceu para presenteá-lo com ouro, incenso e mira. O dia do presente é o dia 6 de janeiro.

Mas, enfim, como é difícil mudar costumes, continuaremos dando presentes no dia do Natal e, por extensão, no Ano Novo. Mas, o que significa dar um presente? A resposta é simples: dar um presente é dizer que gostamos de alguém. E que gostamos dele assim como ele é. E, sobretudo, que não queremos nada em troca. Se damos um presente esperando que essa pessoa retribua com outro presente, não estamos presenteando, mas negociando.

E o triste nessa época do ano é que o ato de dar um presente, que deveria ser um gesto que nasce do fundo do coração, tornou-se um grande negócio. A propaganda quer-nos convencer, a todo o custo, a dar mais e mais presentes. Porque, para o comércio, o gesto de amor de presentear, foi convertido no gesto ganancioso de lucrar.

Se olharmos com profundidade, neste tempo de presentes, estão em disputa duas lógicas econômicas. Por um lado, a economia capitalista que pensa todas as relações como uma troca em que sempre temos que ter lucro. Nessa lógica, o presente não é gratuito, mas é um investimento. A pessoa dá um presente não porque ama, mas para fazer-se amado. E, quanto mais caro o presente dado, maior é o amor com que espera ser amado. O amor virou negócio. É comprado e é vendido em intermináveis prestações que pesam no orçamento de cada mês durante o ano todo.

Do outro lado, está a economia do dom. É a economia do Deus que se faz humano sem esperar nada em troca. É dom gratuito, desinteressado, com o único objetivo de ensinar-nos a amar. Maria, José, os pastores e os reis magos entenderam este gesto de amor de Deus. E foram visitar o menino levando seus presentes sem esperar nada em troca.

Na economia do lucro, do capital, da compra e da venda, cada um dá conforme suas possibilidades e recebe em troca conforme a sua contribuição. Quem dá mais, recebe mais. E quem dá menos, recebe menos. Na economia do dom, do amor, da gratuidade, cada um dá conforme as suas possibilidades e recebe conforme suas necessidades. Quem precisa mais, recebe mais. E quem precisa menos, recebe menos.

São duas lógicas econômicas que estão, literalmente, no berço da experiência cristã, no berço do menino Jesus. E elas marcam todas as relações econômicas, as do passado e as do presente.

Que nesta Festa da Epifania, nos deixemos tocar pelo gesto de Deus que se dá a todos nós indistintamente, sem esperar nada em troca. E nos deixemos tocar pelo gesto dos pastores e dos reis magos que, com aquilo que tem – pouco ou muito – vão até Jesus e se colocam na dinâmica do dom, da gratuidade, da fraternidade universal.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O PRÍNCIPE DA PAZ E OS FALSOS MESSIAS


Em sua recente viagem ao Japão, o Papa Francisco visitou o Epicentro da Bomba Atômica lançada pelos Estados Unidos sobre a cidade de Nagasaki no dia 9 de agosto de 1945. O fato não teria nada de extraordinário. Ir a Hiroshima ou Nagasaki e oferecer flores pelos mortos em consequência das duas únicas bombas atômicas até hoje utilizadas numa guerra, é um ato que quase todos os Chefes de Estado em viagem ao Japão o fazem.

São raros, para não dizer raríssimos, os chefes de Estado que, em viagem ao único país que sofreu um bombardeio nuclear, não visitam uma das duas cidades para prestar sua homenagem aos mortos e a todo o povo japonês. Não fazê-lo, é uma amostra de insensibilidade e de espírito bélico. Não ir a Hiroshisma ou Nagasaki, para um Chefe de Estado, é a afirmação de que os conflitos só podem ser resolvidos pela força das armas. É ser contra a paz. É ser a favor da morte.

Mas, voltando ao Papa Francisco, em sua visita à cidade de Nagasaki, ele foi além da simples visita protocolar. Ele não só condenou o uso de armas nucleares. O Papa Francisco condenou a posse de armas nucleares. Afinal, ninguém tem uma arma inutilmente. Tê-la, pelo simples fato de tê-la sem a intenção de usá-la, não tem sentido. Se alguém tem uma arma, é porque pensa em um dia usá-la. Ou seja, tem a intenção de matar. E isso é o trágico na posse de armas. E não apenas da bomba atômica, mas de toda e qualquer arma.

O Papa foi mais fundo na questão. Em seu discurso, afirmou que o armamentismo nasce da desconfiança para com o outro. É o medo e a desconfiança em relação às outras pessoas, aos outros grupos sociais ou nações que faz nascer o desejo de possuir armas. Disse o Papa: “O nosso mundo vive a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo.”

É o medo e a desconfiança que fazem ver fantasmas de inimigos em todo o canto e toda esquina. E desse medo e dessa desconfiança nasce o desejo de proteção que, para alguns, se sente satisfeito com a presença de armas ou de pessoas poderosas e armadas que nos protejam dos pretensos inimigos.
Restabelecer a amizade e a confiança é o único caminho para construir uma sociedade de paz e convivência harmoniosa entre todos.

Neste tempo de Advento, os cristãos celebram a chegada do Príncipe da Paz. No Evangelho de Mateus, Jesus adverte que, em tempos difíceis e de turbulência, é possível que apareçam muitos que se apresentem como aqueles que vêm trazer a paz para a sociedade. É preciso estar atento e saber discernir para não sermos levados por falsos messias. Estes, normalmente, chegam com muito barulho e se apresentam como príncipes da guerra. O verdadeiro Messias, o Príncipe da Paz, chega sem fazer alarde e se encarna na manjedoura de Belém.

O critério de discernimento, para Jesus, é claro. Ele o busca no profeta Isaías. Verdadeiro Messias, não é aquele que se apresenta com o poder das armas. Pelo contrário, o verdadeiro Messias é aquele capaz de transformar “espadas em arados e suas lanças em foices”. Na nova sociedade construída sobre a paz da justiça, os homens “não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate”.

Que o espírito do Advento nos conduza pelos caminhos da superação do medo, da desconfiança e da violência. Que a amizade e a confiança sejam os condutores de nossos passos no caminho da paz.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Jesus não crucificou a Pôncio Pilatos!


Há duas afirmações do senso comum que precisam ser postas em questão. A primeira, a de que religião e política não se discutem. E muito menos em família ou com os amigos. Afinal, muitos de nós rompemos relações com familiares e nos afastamos de pessoas com as quais tínhamos amizade por causa de diferenças religiosas e políticas. Segundo esse pensar comum, que nasce de experiências às vezes dolorosas, cada um tem sua opção política e sua escolha religiosa e ninguém tem o direito de nela interferir.

O argumento pode ter até uma razão prática. Mas não se sustenta. E isso pela natureza dos dois temas em questão. Tanto a religião como a política são realidades sociais. E as opções que cada indivíduo faz têm consequências não só para ele, mas para toda a sociedade.

A religião, por definição, é a fé vivida de maneira comunitária. Não existe religião de uma só pessoa. A religião – e todas as religiões sem exceção! – são sistemas de sentido compartilhados que visam dar razões à existência e à coexistência. Os valores e comportamentos religiosos, queira o indivíduo ou não, têm incidência social. Por isso podem e precisam ser discutidos.

Da mesma forma a política. Ela é o arranjo consensuado e legitimado de regular as relações sociais. Portanto, toda opção política pode e deve ser discutida, pois a opção de cada um afeta a existência de todos os demais membros da sociedade.

O que podemos questionar é o modo como fazemos estas discussões. Muitas vezes, prevalece a vontade de impor a própria opção religiosa ou política sobre as outras pessoas e a indisposição para ouvir o argumento do outro. Nesse caso, o entrave não está no objeto de discussão, mas no modo como ela é conduzida.

A outra afirmação do senso comum que precisa ser superada é a de que religião e política não se misturam. Primeiro, por um dado prático. Se olharmos a vida política do Brasil e da América Latina nas últimas décadas, veremos que religião e política se entrelaçam cada vez mais intimamente. Para o bem ou para o mal. Mas é um fato que não pode ser negado.

Segundo, religião e política se mesclam também por uma questão conceitual. Com olhares e objetivos diferentes, estes dois âmbitos da existência tratam, como dissemos acima, da mesma realidade: a convivência social. A religião dá o sentido. A política organiza esse sentido na convivência prática. Inevitável que os dois universos se toquem e precisem dialogar. Não fazê-lo, acaba criando uma sobreposição às vezes esquizofrênica.

Para os cristãos, esse diálogo não é apenas um dado prático ou teórico. É uma questão de fé. Afinal, Jesus, a fonte e referência do cristianismo, foi morto em consequência de um julgamento político. Ele foi crucificado por ter-se afirmado como Rei dos Judeus em contraposição ao Imperador Romano. Por isso morreu na cruz e, todos os anos, a Igreja o celebra como Rei do Universo.

Mas atenção! É bom lembrar a muitos cristãos que Jesus não foi o agente crucificador. Ele foi o crucificado. Quem o mandou torturar e matar foi um general romano. Rezamos no creio que Ele “padeceu sob Pôncio Pilatos” e não que Ele “crucificou a Pôncio Pilatos”. Sempre é bom lembrar isso! Principalmente nestes tempos sombrios em que pessoas, em nome de Deus, ostentam instrumentos de tortura e morte chegando à aberração de chamá-lo de “General Jesus Cristo”.

Jesus é Rei, sim. Mas é o rei que entrou em Jerusalém montado num jumento e não num tanque de guerra. Sua única arma foi o perdão e a misericórdia. E seu trono é a cruz. Apresentar Jesus Cristo como um Rei guerreiro, rodeado de soldados sedentos de sangue e armados até os dentes, prontos para matar, não é apenas um desconhecimento da pessoa de Jesus. É pecado, é blasfêmia.

Que deixemos reinar sobre nós a imagem de Jesus, o Rei da Paz que nasce da Justiça.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Que venha o meteorito!





Que venha o meteorito! É uma expressão cunhada e repetida por um colega meu diante da irresponsabilidade humana para com o meio ambiente. Sem pudor e muito menos responsabilidade, utilizamos e abusamos dos recursos naturais e estamos conduzindo o Planeta Terra a uma catástrofe ecológica sem precedentes. E, com insana estupidez, agindo assim, a humanidade está programando a sua própria extinção. E essa catástrofe, antes que chegue à culminância, causará muita dor e sofrimento à espécie humana. Então, para evitar mais sofrimento, que venha logo o meteorito!
Tomando o mote do colega e vendo a deterioração não só do meio ambiente, mas das relações humanas como um todo, também tenho a tentação de desejar que esse fim chegue logo. Ao invés de aprendermos com as gerações que nos precederam, parece que queremos repetir os piores erros do passado…
Com efeito, a humanidade caminha em direção a uma concentração de riqueza nas mãos de poucas pessoas e empresas. Enquanto isso ou, por causa disso, bilhões de seres humanos têm suas vidas ceifadas ou reduzidas drasticamente pela falta do básico: água, comida, saneamento, casa, de atendimento à saúde. E ainda empilhamos milhares e milhares de mortos de forma absurda em guerras que têm como única justificativa a acumulação de mais e mais riqueza por parte de poucos. Que venha logo o meteorito!
Depois de tanto esforço de gerações e gerações para construir sociedades democráticas onde as pessoas, mesmo sendo diferentes e pensando diversamente, possam conviver em paz respeitando-se mutuamente, renascem vozes que exaltam o fascismo, o nazismo, o racismo, a misoginia, os torturadores e assassinos que mancham a história da humanidade e de nossas nações. Que venha logo o meteorito!
Quando olhava a realidade de seu tempo, Jesus teve a mesma tentação. É o que nos atestam os Evangelhos. Ele também desejou que a dor e o sofrimento de seu povo terminassem logo. Era demais aguentar tudo aquilo. Mas há um detalhe importante. A diferença bem declarada por Jesus no seu discurso apocalíptico, é a de que a catástrofe não é o fim último. O desastre provocado pelos humanos e que tem consequências cósmicas, é passageiro. Ele não é um fim em si mesmo e nem dura para sempre. Para além da catástrofe está a justiça de Deus já proclamada pelos profetas, entre eles Malaquias, quando afirma que “virá o dia, abrasador como fornalha, em que todos os soberbos e ímpios serão como palha; e esse dia vindouro haverá de queimá-los”. Para aqueles que, como lembra Jesus, permaneceram fiéis e foram perseguidos por causa da justiça de Deus que é a defesa dos empobrecidos e da criação, “nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas”.
Que esse dia chegue logo! De preferência, antes que venha o meteorito!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O boom religioso e a falta de fé


Para quem circula em meios eclesiásticos, é muito comum ouvir-se o discurso de que o grande problema da sociedade é a falta de religião. E que este afastamento da prática religiosa seria a fonte de todos os males que hoje afligem a sociedade brasileira, desde o desemprego até o aborto e a calvície!

Ledo engano provocado por uma falta de atenção – ingênua ou proposital – em relação ao que está acontecendo na sociedade. No Censo 2010, apenas 8% dos brasileiros se declararam “sem religião”. Mas a maior parte destes 8% afirma alguma forma de crença religiosa fazendo com que o índice dos que se declaram ateus, no estrito senso da palavra, seja ínfimo.

Olhando por outro lado, vemos que o discurso religioso invade todos os âmbitos de nossa convivência. Basta ligar a televisão para ver dezenas de canais transmitindo, 24 horas por dia, programação religiosa. Na internet, então, é o conteúdo que mais abunda. As escolas se tornaram palco de disputa entre igrejas e religiões. Hospitais e praças servem de palco a consoladores e aliciadores das mais variadas crenças e denominações. Música e cinema garantem sucesso e lucro falando de Deus. No mundo político, temos os que querem colocar “Deus acima de tudo” com a força das armas e de fake news.

Isso que ainda não falamos de igrejas. Se algumas, como as tradicionais paróquias católicas estão esvaziadas, outras, tanto católicas como pentecostais, regurgitam de fieis. Isso sem falar dos centros espíritas e africanistas por onde circulam cada vez mais pessoas de todos os estratos sociais e religiosos. E as novas formas de religião que surgem a cada dia fazendo com que o registro de religiões cresça a um ritmo superior ao das outras formas de comércio e à indústria que patinam em meio à crise.

Diante destes fatos, nossa opinião é de que o problema não é a falta de religião. O problema é a falta de fé. Religião é um rito externo. A fé, uma disposição interior que impulsiona a vida em direção a Deus. A maioria das religiões que hoje vemos por aí preocupam-se apenas com o bem estar afetivo ou financeiro de seus frequentadores ou com a sobrevivência da instituição e de seus pastores. Mas tem muita dificuldade em dar um sentido à vida das pessoas e da sociedade como um todo.

Florescem, como afirmou o Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo para a Amazônia, “a ‘religião do eu’ hipócrita com os seus ritos e as suas ‘orações’: muitos dos seus praticantes são católicos, confessam-se católicos, mas esqueceram-se de ser cristãos e humanos, esqueceram-se do verdadeiro culto a Deus, que passa sempre pelo amor ao próximo”.

Diagnóstico do Papa Francisco que segue fielmente a reação de Jesus diante dos sacerdotes do templo de Jerusalém, os saduceus, que, ao invés de alimentar as esperanças do povo na luta pela libertação, assim como o haviam feito no passado os irmãos Macabeus, preocupam-se apenas com as leis e os ritos de seu sistema religioso. Diante da abundância de religiões que ocultam e abafam a ânsia de vida dos pobres e sofredores, é preciso ouvir a voz de Jesus que lembra que a verdadeira fé é a do Deus da vida que quer a vida para todos e todas.