quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Entre tinieblas
O filme é antigo. Em português ganhou o título de “Maus hábitos”. Foi o primeiro rodado por Pedro Almodóvar em um estúdio e com uma equipe profissional. Era o ano de 1983. A Espanha ainda vivia a transição do franquismo para o regime democrático. A liberdade de expressão era uma novidade e o genial cineasta surge em meio à movida madrileña atacando um dos pilares da ditadura que governara o país ibérico desde a década de 1930 através do terror e da formação das consciências dentro de uma rígida moral católica tradicionalista.
O argumento do filme, no original intitulado “Entre tinieblas”, é simples: uma cantora de cabaré, Yolanda Bel, leva uma vida desregrada, regada a drogas e sexo, até o dia em que presencia a morte de seu namorado por overdose. Para fugir da polícia que a busca por tráfico, Yolanda se refugia num mosteiro de religiosas. Para estranheza da fugitiva, todas as irmãs do convento haviam sido prostitutas, cafetinas, viciadas, criminosas ou duas ou mais destas coisas ao mesmo tempo...
A Congregação da qual o convento faz parte é a das “Redentoras Humilhadas”. Para indicar a missão, todas elas abandonam seus antigos nomes e adotam nomes que indicam sua condição pecadora. Seu objetivo é resgatar jovens mulheres que vivem no pecado. Aos poucos, e para surpresa sua, Yolanda descobre que as irmãs, no afã de extirpar os vícios das jovens mulheres da sociedade madrilena, elas mesmas continuavam vítimas dos vícios que condenavam nas outras. A tensão gerada pelo afã da dura missão fazia com que, cada uma delas encontrasse nos vícios que pretendia combater uma válvula de escape para tornar a vida na clausura mais suportável.
Assim, a Madre Superiora, que se dedica a acolher as jovens que, como Yolanda, eram presas pela prostituição, ela mesma acabava criando jogos de sedução e prazer sexual com as novatas que chegam ao convento. Irmã Perdida, por sua vez, que tem como preocupação acolher as dependentes de drogas, faz do consumo do LSD um caminho para supostas para experiências espirituais que, na verdade, são experiências químicas. Irmã Ratazana de Esgoto e Irmã Víbora, recuperadoras de mulheres que vivem a frívola vida da ascendente burguesia espanhola impulsionada pela retomada econômica da Europa, têm como passatempo, a primeira, escrever, sob pseudônimo, livros sensacionalistas e, a segunda, criar roupas vanguardistas para os santos da capela do convento.
O roteiro do filme avança com a complexidade das tramas típicas de Pedro Almodóvar que levariam a clássicos como “Carne Trêmula” (1997), “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Fale com Ela” (2002), “Má Educação” (2004) e o insuperável “Volver” (2006). Ah! E não podia de deixar de mencionar “A Pele que Habito” (2011).
Mas voltemos a “Entre Tinieblas/Maus Hábitos”. Lembrei deste filme ontem, quando vi, estupefato, na televisão, a imagem das três equipes da Força Tarefa da Lava Jato reunidas no Rio de Janeiro para preparar o Combate Final (sic!) contra a corrupção no Brasil. Combate que, segundo o porta voz das equipes, o impagável Profeta-do-Apocalipse-do-Power-Point-das-Bolinhas-Azuis, terá que ser assestado antes das eleições de 2018. A televisão, numa mise em scène típica de um filme de segunda categoria, ia focando um a um os personagens da insólita reunião. A medida que os rostos iam aparecendo em close up, não tive como não lembrar da Madre Superiora, da Irmã Perdida, da Irmã Ratazana de Esgoto e da Irmã Víbora e sua tentativa de livrar o mundo dos vícios.
E, como a fugitiva Yolanda, me perguntei: será que, para acabar com a corrupção, teremos que nos tornar tão corruptos quanto aqueles que queremos combater? Só a genialidade de uma trama de Almodóvar para nos conduzir na busca de uma saída para o labirinto de trevas em que nossos maus hábitos nos colocaram.
terça-feira, 7 de novembro de 2017
Francisco, Lutero e Francisco
Neste dia 31 de outubro, data em que se comemoram as muitas reformas religiosas do séc. XVI, me encontro a imaginar uma conversa entre Francisco de Assis e Lutero...
- Bom te ver, aqui, Frei Francisco, o grande fundador da Ordem dos Frades Menores.
- Bom te ver também, Frei Martinho, o grande fundador da Igreja Luterana!
- Pois é, Frei Francisco... Mas a verdade é que eu nunca quis fundar uma igreja. Meu único desejo era ver a única Igreja de Cristo toda ela reformada.
- Coincidência, Frei Martinho! Eu também nunca quis fundar uma Ordem Religiosa. Eu só queria que todos os cristãos, desde os mais simples até o Papa, apenas vivessem o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, pobre, humilde e obediente. Até hoje não me conformo que os frades tenham aceito uma regra, conventos, títulos... Tem até frade que é bispo, cardeal! Acho que falhei em alguma coisa.
- Eu também acho que falhei. Eu só queria que a Igreja voltasse a viver o Evangelho de Jesus Cristo e deixasse de se preocupar com riqueza e poder.
- Pois era isso exatamente o que eu queria: uma Igreja pobre e que estivesse junto dos pobres.
- Meu problema acho que foram os príncipes alemães que se aproveitaram da insatisfação religiosa e a direcionaram para seus interesses políticos. E eu, ingenuamente, crendo que eles tivessem boa vontade, me deixei levar por sua proteção e seus benesses. Erro meu!
- Eu resisti até o fim. Renunciei à liderança da fraternidade fugi para as montanhas, fiz jejum, muita oração, meu corpo ficou todo dilacerado, escrevi para os frades um Testamento dizendo quais eram meus desejos e intenções... mas não adiantou! O canto de sereia das benesses eclesiásticas foi mais forte e o movimento foi domesticado. Por sorte teve Clara de Assis, minha companheira desde a juventude, que se manteve até o fim, até fazendo greve de fome. E depois vieram os frades que se chamavam de espirituais, pois diziam que o único superior da Ordem é o Espírito Santo e que os frades não podem ter nenhuma propriedade. Mas foram expulsos da Igreja como hereges...
- Pois, ouviste, Frei Francisco, falar desse Papa que aí está, que aliás, leva o teu nome, o Papa Francisco?
- Sim, e parece que ele também está tendo problemas com a Igreja..
- Mas ele não é o Papa?
-É, sim. Só que é um Papa meio estranho. Ele quer uma Igreja pobre e com os pobres. E muita gente na Igreja, principalmente alguns cardeais, bispos, padres, não estão a fim de deixar seu poder e sua riqueza para servir aos mais fracos e humildes...
- Bah! Se o Papa do meu tempo fosse assim, eu não teria pregado as 95 teses na Igreja de Wittenburg. Teria feito uma aliança com ele e teríamos mudado a Igreja.
- Será que ele vai conseguir mudar a Igreja?
- Eu só espero que os seus seguidores não sejam obrigados a fundar outra Igreja. Já chega de divisões na Igreja de Cristo.
- E eu espero que ele não seja obrigado a fundar mais uma Ordem Religiosa. Já tem demais...
- Prazer te ver, Frei Francisco.
- Prazer foi meu, Frei Martinho. Quer vir jantar lá em casa?
- Com certeza. Mas antes da janta, vais ter que me deixar fazer um sermão sobre a Carta aos Romanos.
- Sem problema! Desde que tu me deixes eu te lavar os pés antes da leitura.
- De acordo. Até logo...
- Bom te ver, aqui, Frei Francisco, o grande fundador da Ordem dos Frades Menores.
- Bom te ver também, Frei Martinho, o grande fundador da Igreja Luterana!
- Pois é, Frei Francisco... Mas a verdade é que eu nunca quis fundar uma igreja. Meu único desejo era ver a única Igreja de Cristo toda ela reformada.
- Coincidência, Frei Martinho! Eu também nunca quis fundar uma Ordem Religiosa. Eu só queria que todos os cristãos, desde os mais simples até o Papa, apenas vivessem o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, pobre, humilde e obediente. Até hoje não me conformo que os frades tenham aceito uma regra, conventos, títulos... Tem até frade que é bispo, cardeal! Acho que falhei em alguma coisa.
- Eu também acho que falhei. Eu só queria que a Igreja voltasse a viver o Evangelho de Jesus Cristo e deixasse de se preocupar com riqueza e poder.
- Pois era isso exatamente o que eu queria: uma Igreja pobre e que estivesse junto dos pobres.
- Meu problema acho que foram os príncipes alemães que se aproveitaram da insatisfação religiosa e a direcionaram para seus interesses políticos. E eu, ingenuamente, crendo que eles tivessem boa vontade, me deixei levar por sua proteção e seus benesses. Erro meu!
- Eu resisti até o fim. Renunciei à liderança da fraternidade fugi para as montanhas, fiz jejum, muita oração, meu corpo ficou todo dilacerado, escrevi para os frades um Testamento dizendo quais eram meus desejos e intenções... mas não adiantou! O canto de sereia das benesses eclesiásticas foi mais forte e o movimento foi domesticado. Por sorte teve Clara de Assis, minha companheira desde a juventude, que se manteve até o fim, até fazendo greve de fome. E depois vieram os frades que se chamavam de espirituais, pois diziam que o único superior da Ordem é o Espírito Santo e que os frades não podem ter nenhuma propriedade. Mas foram expulsos da Igreja como hereges...
- Pois, ouviste, Frei Francisco, falar desse Papa que aí está, que aliás, leva o teu nome, o Papa Francisco?
- Sim, e parece que ele também está tendo problemas com a Igreja..
- Mas ele não é o Papa?
-É, sim. Só que é um Papa meio estranho. Ele quer uma Igreja pobre e com os pobres. E muita gente na Igreja, principalmente alguns cardeais, bispos, padres, não estão a fim de deixar seu poder e sua riqueza para servir aos mais fracos e humildes...
- Bah! Se o Papa do meu tempo fosse assim, eu não teria pregado as 95 teses na Igreja de Wittenburg. Teria feito uma aliança com ele e teríamos mudado a Igreja.
- Será que ele vai conseguir mudar a Igreja?
- Eu só espero que os seus seguidores não sejam obrigados a fundar outra Igreja. Já chega de divisões na Igreja de Cristo.
- E eu espero que ele não seja obrigado a fundar mais uma Ordem Religiosa. Já tem demais...
- Prazer te ver, Frei Francisco.
- Prazer foi meu, Frei Martinho. Quer vir jantar lá em casa?
- Com certeza. Mas antes da janta, vais ter que me deixar fazer um sermão sobre a Carta aos Romanos.
- Sem problema! Desde que tu me deixes eu te lavar os pés antes da leitura.
- De acordo. Até logo...
terça-feira, 31 de outubro de 2017
Quem escala o juiz?
É muito difícil ganhar uma partida de futebol quando o juiz
joga com o time adversário. Todos sabem disso. Tanto na várzea como no futebol
profissional. Nos meus velhos tempos de atleta varzeano, o grande dilema,
quando acertávamos um jogo com algum time de uma comunidade da vizinhança, era
saber se o juiz ia ser “nosso” ou “deles”. Como os acertos normalmente eram de
dois jogos, um em cada localidade, a praxe era que o time visitante indicasse o
juiz. Assim se buscava um equilíbrio entre o fator local e o fator juiz. E isso
era ainda mais grave porque, no futebol varzeano, não havia bandeirinhas. Todas
as decisões eram tomadas monocraticamente pelo todo poderoso árbitro.
Dispensável é dizer que, assim como os jogadores, o árbitro
também era amador. Apitava a partir da experiência e do que ouvia no rádio e
via na televisão que, naquele tempo, começava a aparecer no interior. Os erros
eram muitos. Todos sabiam disso, mas como gostavam de futebol e, sem juiz, não
havia jogo, todos toleravam condescendentemente os erros que, involuntariamente
o árbitro cometia.
A coisa só enfeiava quando o encarregado do apito começava a
tomar decisões com o claro intuito de favorecer o time de sua localidade. Aí havia
três opções. A primeira, substituir o juiz. A segunda, mais radical, era a do
time que se sentia prejudicado retirar-se do campo e, assim, encerrar o jogo. A
terceira, rara, mas possível, era a de partir para a violência física que podia
voltar-se contra o juiz ou contra o time adversário quando esse dava cobertura
aos erros do juiz.
Lembro disso neste momento conturbado do país em que os
juízes encarregados de arbitrar os diferendos sociais jogam sistematicamente a
favor de um dos lados do conflito social. Enquanto absolvem sistematicamente
todas as faltas cometidas pelos principais jogadores de um time, classificam
como faltosas qualquer atitude dos representantes do outro time, mesmo aquelas
que nunca foram cometidas.
Como no futebol de várzea em que nos divertíamos nos
domingos à tarde, para que a paz volte e o “jogo Brasil” possa continuar, o
ideal seria substituir os juízes partidários. Mas como o time por eles
favorecido dificilmente acatará essa possibilidade, restam as outras duas. A
segunda, de o time que se sente prejudicado deixar o Brasil, me parece inviável.
Como e para onde iriam os 97% de brasileiros e brasileiras prejudicadas pela
parcialidade arbitral? Nem duas Argentinas seriam suficientes para acolher a
todos! E lá, pelo que se sabe, as coisas não são muito diferentes. Do outro
lado do Rio da Prata, a parcialidade dos juízes parece ser ainda maior que a do
Brasil.
Meu temor, então, é que só reste a terceira alternativa: que
os que se sentem prejudicados se voltem contra os juízes iníquos e contra
aqueles que sustentam suas decisões que desequilibra o jogo. Com isso, existe a
possibilidade de que o jogo acabe para todos, e da forma mais lamentável
possível. É o que temo neste momento.
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
500 anos depois...
Quinta-feira, 28 de setembro de 2017. Um fim de tarde como tantos outros na Praça da Matriz. Temperatura amena, uma leve brisa soprando do Guaíba. Pela Duque de Caxias os carros aceleram em direção sul-norte buscando o caminho da Oswaldo Aranha e da Azenha. Faróis ligados para iluminar o fim da tarde que começa lançar suas sombras por entre os prédios. Sons irritantes das buzinas dos apressados e impacientes. Todos tem pressa de chegar em casa. Da Assembleia Legislativa saem inúmeros funcionários. Ninguém sabe exatamente quantos... São identificáveis pelos ternos e crachás esquecidos sobre o peito. O Palácio Piratini mantem-se impávido em meio ao tumulto. Parece não sentir, assim como soe fazer seu ocupante de plantão, o que se passa ao seu redor. Um fim de tarde como qualquer outro fim de tarde de uma quinta-feira de mais uma primavera porto-alegrense.
Algo estranho, no entanto, acontece no estacionamento público do entorno da Praça da Matriz. Os carros que partem levando seus fatigados ocupantes são imediatamente substituídos por outros carros que giram em busca de vaga. Os flanelinhas estranham. É anormal o movimento. Bom para eles que, alegres com a perspectiva de uma renda extra, em nada se importam com o atípico movimento. Os novos chegantes são, em sua grande maioria, altos, brancos, loiros. Típicos germânicos. Homens e mulheres. Em cada carro estão quatro e até cinco pessoas. As placas dos carros são da Região Metropolitana de Porto Alegre.
Os chegantes dirigem-se rapidamente em direção à Catedral Nossa Senhora Mãe de Deus. Que irão fazer? A missa vespertina já terminou e a essa hora as pesadas portas já deveriam ter sido fechadas para evitar a entrada de mendigos e moradores de rua. Mas as portas estão abertas e nos degraus e no pórtico de acesso um aglomerado de bispos, padres e, para surpresa de alguns e alegria de muitos, um sem número de pastores luteranos e representantes de outras igrejas cristãs. É noite de festa. É noite de reencontro. É noite para passar do conflito à comunhão. É a celebração ecumênica dos 500 anos da Reforma. Dom Jaime Splenger, Arcebispo de Porto Alegre e anfitrião do encontro, preside ao lado do Pastor Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), pastor Nestor Paulo Friedrich, da vice-presidente da IECLB, pastora Sílvia Beatrice Genz, e do presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Leituras, cantos e exortações alternados entre católicos e luteranos.
Nos bancos ao meu redor, vários conhecidos e conhecidas, tanto católicos como luteranos. Padres e pastores de várias cidades do interior. Entre tantos encontros, a alegria de reencontrar e poder rezar junto com professores e colegas da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo. Catedral repleta. Vozes unidos em torno dAquele que constrói a unidade.
Discretamente me levanto e, girando pelos fundos da catedral, me dirijo à segunda coluna à direita. Nela estão sepultados os dois primeiros bispos de Porto Alegre, Dom Feliciano José Rodrigues de Araújo Prates e Dom Sebastião Dias Laranjeira. Este último, o grande reformador da Igreja Católica no Rio Grande do Sul. Com todo afinco buscou implementar as orientações da Encíclica “Quanta Cura” de Pio IX e o seu complemento, o “Syllabus Errorum...” Em sua participação no Concílio Vaticano I, destacou-se pelo apoio incondicional à tese da infalibilidade papal e o combate à modernidade e ao protestantismo. Na sua ação pastoral, fazia pressão junto ao poder público para que não fossem destinadas verbas para a construção de igrejas protestantes e não fossem reconhecidos pelo Estado os matrimônios luteranos.
Encosto na coluna junto à lápide e apuro o ouvido: silêncio! Bato com o nó dos dedos para ver se há alguma reação: nada! Fico tranquilo... Oxalá continue assim: tudo em paz no mundo dos mortos e tudo em festa no mundo dos vivos.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Os terraplanistas estão chegando!
O nome é bonito: terraplanista!
Uma espécie para mim nova. Tomei conhecimento dela lendo uma reportagem no site
da BBC. Curioso, comecei a fazer buscas na internet e me dei conta que há
vários grupos deles que se multiplicam pela internet. Alguns ultrapassam o
número dos 70 mil seguidores. Entre eles, pessoas com boa formação acadêmica: técnicos,
engenheiros, profissionais de várias áreas. Também há muitos estudantes
universitários e até alguns professores. Para minha surpresa, um dos grupos
mais ativos tem como administrador um morador da capital dos pampas.
A afirmação dos terraplanistas é
simples: a Terra é plana e seus confins são delimitados por uma cúpula na qual
circulam o sol, a lua e as estrelas que seriam muito menores que a Terra. O
objetivo dos terraplanistas é combater os “globalistas”, ou seja, aqueles que
acreditam que o planeta Terra é redondo.
Por consequência, os
terraplanistas também se opõem aos heliocentristas. O terraplanista é geocentrista. Copérnico, para eles, foi um
mentiroso. Galileu Galilei, idem. A Igreja fez bem em condená-los. Como
argumento para a sua teoria, citam as muitas tradições religiosas que afirmam
que a Terra é o centro do universo. Entre elas, a Bíblia. Para um terraplanista,
a teoria de que a Terra é redonda nada mais é do que uma conspiração de pessoas
antirreligiosas e da Agência Espacial Norte Americana (a NASA) que com isso
pretende ganhar dinheiro e manter a humanidade sob sua dominação. As fotos de
satélite mostrando a Terra redonda seriam uma montagem para enganar os
incautos. Mais: a própria existência de satélites girando ao redor da Terra
seria pura mentira, como mentiroso foi o desembarque do ser humano na Lua.
Ao seguir um grupo de
terraplanistas, me dei conta que muitos deles são também criacionistas. Eles
acreditam que o ser humano, assim como todos os animais e as plantas, foram
criados por Deus assim como são na atualidade. E que a criação deu-se tal qual
está descrito no Livro do Gênesis da Bíblia cristã. No primeiro dia Deus
separou a luz da trevas; no segundo as águas as águas superiores das águas
inferiores; no terceiro separou as águas inferiores da terra e nesta criou as
ervas; no terceiro o sol, a lua e as estrelas; no quinto, foi a vez dos animais
aquáticos, das aves e dos répteis; no sexto Deus criou os animais terrestres e,
entre eles, os humanos sobre os quais soprou seu alento divino. A Teoria da
Evolução das Espécies, para os criacionistas, nada mais é do que uma das tantas
invencionices da modernidade e suas ciências na tentativa de semear a descrença
e o ateísmo. Os fósseis, tanto animais como humanos, encontrados em diversos
lugares do mundo, são apenas grosseiras invencionices para ludibriar bobos.
Outro elo entre terraplanistas e
criacionistas, é o chamado negacionismo. Muitos deles negam veementemente que
seis milhões de judeus tenham sido mortos pelas forças armadas, pela polícia e
pelos diversos grupos paramilitares nazistas alemães no período que antecedeu e
durante a II Guerra Mundial. E, assim como não houve o holocausto dos judeus,
também não houve perseguição e morte de comunistas, ciganos e homossexuais. Os
campos de concentração e extermínio seriam invenção dos próprios judeus,
comunistas, ciganos e homossexuais para se passarem por vítimas e assim
conquistar indenizações e humilhar o povo alemão. Hitler, para os revisionistas
– muitos deles criacionistas e terraplanistas – foi um grande governante que
reergueu a nação alemã que vivia humilhada pelas forças do imperialismo
capitalista e comunista. A prova é que os dois imperialismos se uniram para
derrotar a nação alemã. Mas o IV Reich um dia se reerguerá para restabelecer a
supremacia da raça ariana sobre toda a humanidade.
Entre os terraplanistas,
criacionistas e revisionistas, especialmente os do sul do Brasil, há muitos que
afirmam que as obras de arte devem ser censuradas. Quando eclodiu o episódio da
exposição “Queermuseum” do Santander, vários se pronunciaram afirmando que
aquilo não era obra de arte. Para eles, o próprio conceito de “queer” é algo
que vai contra a natureza já que, pela criação de Deus, ou se é macho ou se é
fêmea. E que as pessoas que se afirmam gays, lésbicas, bissexuais, transexuais,
transgêneres..., nada mais são do que aberrações fruto da ideologia de gênero
semeada pelas forças internacionais imperialistas que pretendem dominar a
humanidade.
De surpresa em surpresa, me dei
conta que muitos censuradores, revisionistas, criacionistas e terraplanistas,
também são a favor da intervenção militar para repor o Brasil nos eixos. Para
eles, o Golpe Militar de 1964 salvou o Brasil do comunismo internacional,
instaurou a moral e os bons costumes e colocou cada um no seu lugar: os
militares para prender e matar; os capitalistas para acumular riquezas; os
trabalhadores para trabalhar; e os vagabundos prá correr. O único erro do
regime militar foi ter deixado figuras como Luiz Carlos Prestes, Miguel Arraes
e Leonel Brizola voltar ao Brasil. Ah! E outro erro dos militares foi deixar-se
influenciar pelo Golbery do Couto e Silva que achava que não havia nenhum
problema com um metalúrgico barbudo de São Bernardo que liderava as greves no
ABC. Deviam ter acabado com ele desde o início... Como não acabaram com o
metalúrgico barbudo na década de 1980 e, por intervenção do imperialismo comunista
internacional, ele chegou ao poder pelo voto do povo ignorante, foi preciso
restabelecer a ordem democrática depondo sua sucessora pelo voto democrático de
parlamentares impolutos. As malas de dinheiro na casa do Geddel e aquelas que o
Rocha Loures levou para Belo Horizonte para entregar ao Aécio, assim como os 23
milhões de dólares que o Serra tem na Suíça, isso é tudo invencionice da
imprensa esquerdista liderada pela Globo que apoiou o golpe. Só não vê quem não
quer!
Nesta Semana Farroupilha, alguns
golpistas, censuradores, revisionistas, criacionistas e terraplanistas estão
com orgulho levantando a bandeira gaúcha para afirmar que a Revolução
Farroupilha foi feita em defesa da liberdade. E que o Massacre de Porongos é
invencionice do movimento negro para denegrir a heroica imagem de Bento
Gonçalves e demais heróis farroupilhas. E que o objetivo deste movimento
revisionista é transformar os CTGs em terreiros. Neles, não mais seria feito
churrasco com carne uruguaia, mas seriam assadas as galinhas e cabritos
oferecidos aos orixás. E que os patrões e prendas seriam substituídos por pais
e mães de santos. E, no lugar da história farroupilha, as professoras dos
colégios ensinariam a história da África e da escravidão que no Rio Grande do
Sul nunca existiu porque o povo gaúcho é amante da liberdade e as charqueadas
de Pelotas são apenas um cenário cinematográfico.
Ah! Alguns gauchistas, golpistas,
censuradores, revisionistas, criacionistas e terraplanistas também acreditam
em ETs, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa,
Bicho Papão e Cegonha. Mas isso já são outras histórias...
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
O gordinho dono da bola
Todos os que jogamos futebol na
infância conhecemos o caricato personagem do gordinho, filhinho de papai, que
era dono da bola. Nas redondezas, era o único que sempre tinha uma bola nova
para jogar. Quem, como eu e meus irmãos e a maioria dos vizinhos, vivia catando
bolas de segunda mão, costurando um pedaço de uma com a outra, remendando,
fazendo de tudo para ter uma bola para brincar, vivíamos com inveja do
gordinho. Ele sempre tinha uma bola nova, reluzente, colorida, número cinco!
Era o sonho: uma bola nova número cinco... E se fosse da marca “Dal Ponte”,
costurada a mão... Quanta inveja!
E o pior era que o gordinho sabia
do poder de sua bola nova, colorida, número cinco, da marca “Dal Ponte”. Nós,
os “Sem Bola” ou com bolas precárias, remendadas e velhas, concordávamos
tacitamente com o poder que ele tinha, não por mérito seu, mas por ter um pai
que podia comprar-lhe uma bola nova a cada seis meses. Para nós, com pais
trabalhadores, vivendo no limite da necessidade e loucos por futebol, mais
valia fazer as vontades do gordinho e poder jogar com sua bola do que opor-se e
ter que correr atrás de uma bola velha, número três, remendada e descolorida.
Entre as vontades do gordinho
estava a de escalar os times. Ele ditava quem jogava no time dele e quem
jogaria no time adversário. A sorte era que o gordinho, apesar de ser o dono da
bola, não entendia muito de futebol. Ele escolhia os jogadores mais por amizade
do que pela qualidade futebolística de cada um. E como, normalmente, entre
aqueles que o gordinho considerava seus amigos havia alguns que jogavam bem e
outros que jogavam mal, as equipes quase sempre resultavam equilibradas.
O outro direito que o gordinho
fazia valer era o de nunca jogar de goleiro. Era a posição terrível e detestada
por todos. A solução era o revezamento. Cada um jogava um pouco de goleiro e,
depois de um tempo ou de tantos gols feitos, era substituído por um companheiro
do time. Mas o gordinho, usando o poder da bola nova, reluzente, número cinco,
da marca “Dal Ponte”, nunca ia para o gol. Queria sempre jogar de centroavante.
Sim, naqueles tempos havia uma posição na escalação que se chamava
“centroavante”. Era o cara que ficava na frente, fincado entre os dois
zagueiros e, pela força ou pela habilidade, era o encarregado de fazer gols. E
o gordinho não tinha nem uma e nem outra... e, por isso, nunca fazia gol. Todo
mundo queria que ele jogasse ou de lateral direito ou de ponteiro esquerdo. Não
vou explicar aqui para os mais novos o que era um lateral direito ou um
ponteiro esquerdo. Mas, não sei por que – e esse é um dos mistérios do futebol dos
tempos da minha infância que até hoje não foi desvendado – todo perna de pau
era escalado para jogar, ou de lateral direito ou de ponteiro esquerdo. E o
gordinho teimava em jogar de centroavante! E nós tínhamos que aceitar porque
senão, ele enfiava a bola embaixo do braço e ia embora.
A outra situação terrível em que
o gordinho enfiava a bola embaixo do braço e ameaçava ir embora era quando o
time dele começava a perder de goleada. Às vezes até evitávamos fazer muitos
gols no time do gordinho com medo de que a ameaça se concretizasse. Ele
começava a choramingar, a dizer que ia contar tudo para o pai, que nós não
valíamos nada, que ele sabia jogar muito mais que nós e que, desse jeito, ele
não brincava mais. E às vezes a ameaça se tornava realidade... O gordinho
pegava a bola, metia o objeto de desejo e admiração de todos nós entre o braço
e a lateral da barriga e, entre uma lágrima e um muxoxo, saia do campo, tomava
o caminho que levavas às casas bonitas da vila e desaparecia na esquina perto
da mansão onde morava com seu pai e sua mãe. Era o fim do sonho e só nos
sobravam duas alternativas. A primeira era a de também ir embora tomando o
caminho oposto ao tomado pelo gordinho e voltar a nossas casas que ficavam no
lado pobre da vila. Ou então, sair do sonho e voltar à realidade jogando com
uma de nossas bolas velhas, remendadas, descoloridas, número três, que até
aquele momento tinha ficado escondida de vergonha atrás de uma das goleiras.
Não sei porque as lembranças do gordinho dono da
bola me vieram à mente nesta semana quando, no noticiário político, apareceu
aquele apartamento cheio de malas recheadas de dinheiro. As digitais que a polícia
encontrou nas malas indicam que o Sr. Geddel Vieira Lima era responsável pela
presença daquelas malas com todo aquele dinheiro naquele apartamento na cidade
de Salvador. No total, 51 milhões de reais sob a cara gorda e sorridente do
nobre político baiano com trinta anos de carreira e serviços prestados a vários
governos. E aí veio a pergunta que não quer calar: quantas bolas novas,
coloridas, reluzentes, número cinco, da marca “Dal Ponte”, daria para comprar
com todo aquele dinheiro?
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