quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Você sabe o que é caviar?

Com essa pergunta, Zeca Pagodinho inicia o refrão de uma das músicas mais questionadoras do seu amplo e excelente repertório. Ela nos chama atenção para o sentido do paladar. Um sentido que utilizamos muitas vezes ao dia e ao qual nem sempre damos a devida atenção mas que é fundamental para a nossa sobrevivência. É ele que nos permite realizar de forma eficaz uma das necessidades elementares do ser humano: comer!
Sem comer, morremos por inanição. Mas também não podemos comer qualquer coisa. Comer sem critério, também pode levar à morte. Não apenas porque podemos comer demais. E esse é um dos grandes males da atualidade, a obesidade. Mas também porque podemos comer algo que faça mal à nossa saúde.
A função do paladar é selecionar aquilo que comemos. Fazemos isso através dos milhares de botões gustativos – assim os chamam os estudiosos da anatomia humana – que recobrem nossa língua e nos permitem identificar os alimentos e classificá-los conforme os cinco gostos básicos: doce, salgado, amargo, azedo e umami.Através desta seleção básica, o corpo identifica o que é bom para ser comido e o que pode fazer mal ao corpo.
Mas, além do gosto, existe também o sabor. Gosto e sabor não são a mesma coisa. O gosto é a reação química do corpo diante do que é colocado na boca. Sabor, é algo mais complexo. É a combinação do gosto com outros sentidos – a visão, o tato e o olfato – e com toda uma aprendizagem do que é agradável e desagradável. Por isso, há comidas que são amargas e consideradas saborosas; outras, também amargas, consideradas como não saborosas. O mesmo com comidas ácidas, salgadas e doces... Há um doce que dá prazer; outros doces que são nojentos e nosso corpo rejeita. E a mesma comida ou bebida, para um grupo social pode ser considerada saborosa enquanto para outro é asquerosa. Tudo é uma questão de aprendizagem.
Por isso, o paladar, além de um fato biológico, é também um fato cultural. E, por tocar algo que é fundamental ao ser humano, é um elemento fundamental para identificar uma sociedade. Como nos lembrar os sociólogos Farb e Armagelos, “em todas as sociedades, o ato de comer é o modo básico de iniciar e manter relações humanas. Quando o antropólogo descobre onde, quando e com quem se dá a alimentação, pode-se inferir quase tudo mais sobre as relações entre os membros da sociedade. Saber o quê, onde, como, quando e com quem as pessoas comem é conhecer o caráter de sua sociedade”.
Voltando a Zeca Pagodinho, há gente que faz questão de dizer que come caviar e toma champanhe francês. Outros, preferem arroz, feijão, ovo frito e torresmo. Os primeiros, normalmente, o fazem por opção. Os segundos, os que comem todo dia feijão, arroz e ovo frito, normalmente o fazem porque não tem outra opção.
A capacidade da comida em revelar quem são as pessoas e como é a sociedade é tal que poderíamos dizer: “diga-me o que e com quem comes, e eu te direi quem tu és”. Ou, como diz o velho filósofo Feuerbach, “o ser humano é aquilo que come”.
Em qualquer uma das nossas cidades, é fácil saber quem come nos restaurantes onde um almoço ou janta passa dos cem reais e os que almoçam todos os dias no Restaurante Popular ou então nos sopões dos Centros Espíritas. Os que comem num lugar, não se misturam com os que comem no outro. Cada um na sua mesa e com suas companhias.
Os restaurantes são seletivos. A comida é seletiva. O paladar é seletivo. E seletiva é a sociedade, como a brasileira, que, segundo dados da EMBRAPA, 40% do alimento produzido é desperdiçado, desde o início do processo de sua produção, na colheita, no armazenamento, transporte, distribuição, preparação da comida e até o descarte depois das refeições realizadas. Enquanto isso, 20% da população brasileira sofre de carência alimentar... Nos Estados Unidos, o desperdício é de 50% do produzido. Com a comida desperdiçada só nos Estados Unidos, seria possível saciar todos os famintos do mundo.
Assim que, ao comer, somos convidados a sentir o sabor dos alimentos. Mas a também perguntar-nos por quem está à nossa mesa e também por aqueles que não tem uma mesa e com quem comer e muito menos o que comer. Bom apetite!

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Tocar o intocável

O tato é o mais primitivo e o mais amplo dos sentidos humanos. Quando nascemos, nossos olhos ainda estão fechados, nossos ouvidos ainda estão surdos... nosso contato com o mundo se dá através da nossa pele.
O maior conforto para uma criança, logo ao nascer, é ser colocada sobre o corpo da mãe. Sentir o calor do corpo materno dá para o recém nascido o conforto e a segurança para superar a violência do parto. O mesmo diga-se para a mãe. Sentir o corpo da criança junto ao seu dá a ela a sensação de que tudo está bem com a criança. Hoje, depois de séculos de uma medicina asséptica, médicos voltam a descobrir essa realidade tão primitiva da experiência humana: o tato é o mais primitivo e mais profundo dos sentidos. Ele nos remete ao início da vida.
O tato como primitiva expressão da relação humana, também se manifesta quando queremos dizer a alguém que o amamos. Não basta dizer. Temos que nos aproximar e demonstrá-lo fisicamente. Num ambiente formal, simplesmente apertamos as mãos. É distante, mas já é um contato. Quanto temos um pouco mais de proximidade, beijamos o rosto da outra pessoa e nos deixamos beijar.
Quando esta proximidade ainda é maior, a proximidade se aprofunda e partimos para o abraço que aperta cada vez mais na medida em que queremos expressar a profundidade do sentimento que experimentamos pelo outro.
Num casal de amantes, o beijo, do rosto, passa aos lábios, à boca, fazendo-se expressão do encontro total dos dois que já não são dois, mas passam a ser um. A culminância do encontro táctil se dá na relação sexual, momento em que todo o corpo é tocado, na sua exterioridade e na sua intimidade, pelo corpo do outro.
Muitas vezes, quando representamos os sentidos, para falar do tato, desenhamos as mãos. Ledo engano. As mãos são a ínfima expressão do tato. O tato está presente em toda a superfície de nossa pele. Da ponta dos dedos dos pés até o alto da nuca. São, em média, dois metros quadrados de pele com cinco tipos de sensores que permitem ao nosso corpo sentir o mundo ao seu redor. Sentimos frio, calor, prazer e dor. É o sentido quantitativamente mais amplo no ser humano. Quando pisamos numa superfície quente ou fria, é o tato que está na sola dos nossos pés que sente. Todos já sentimos um frio subir pelas pernas. Ou um frio na barriga. Ou um calor... ou frio na nuca, nas costas, no ventre! Toda a superfície de nosso corpo é táctil. Ao mesmo tempo que protege o interior do nosso corpo, a pele nos coloca em contato e comunicação com o exterior.
Convido-as também a pensar em situações em que o sentido do tato não é permitido. Por exemplo, uma mãe que, ao parir o filho ou a filha, é privada do contato com a criatura que saiu de seu ventre. Não poder tocá-lo, sentir seu calor, sua pele, tê-lo sobre seu regaço... E, do lado da criança, como medir o trauma de sair do calor do ventre materno e não mais ter contato com aquele corpo que o gerou? Penso nas crianças que nasciam nos leprosários. Conheci o de Itapuã, em Viamão, pertinho de Porto Alegre. As mães leprosas, ao engravidar, sabiam que nunca tocariam seus filhos depois que saíssem de seus ventres. A cadeira de parto, de madeira, era colocada numa janelinha entre uma sala e outra. A sala das leprosas, onde ficava a mãe e a sala dos sãos, onde ficava a enfermeira. Ao nascer, a criança passava de uma sala para a outra. A criança apenas era mostrada para a mãe que nunca poderia tocá-la...
Alguém já fez a experiência de, ao estender a mão para saudar alguém, ter a mão do outro negada? Ou então, de ver o rosto desviar-se quando se aproximava para o beijo? Ou então, aquele abraço frio, mecânico, sem calor, sem sentimento?
Poderíamos também falar – e é preciso falar – daquele toque da pele agressivo, violento, impositivo. Aquele toque na pele indesejado, ofensivo, que as mulheres sofrem nos ônibus, nos trens, nas ruas, nas festas, nas casas, na intimidade do lar e até nas igrejas. O toque que se transforma em golpe, tapa, soco, estupro, quando a mulher não consente em ter seu corpo tocado por quem ela não deseja.
E as crianças que tem seus corpos tocados de forma violenta por parte de quem esperavam carinho e proteção. E seus corpos recebem agressão, violenta, na pele, no corpo, na profundidade da alma. Agressões de forma tão violenta que, muita vezes, inibem o próprio sentido do tato e acabam por tornar os corpos, individual e socialmente, insensíveis e intocáveis.

É preciso reaprender a tocar o intocável. E afastar o toque não consentido e não desejado que pode deixar marcas de dor e sofrimento para o resto da vida.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Ver o invisível

Estamos tão habituados com o fato de enxergar, que dificilmente nos imaginamos cegos ou impedidos de ver. O mundo, tal qual o organizamos, é um mundo de videntes e para videntes. Uma pessoa que não enxerga tem muita dificuldade para habituar-se e conviver no mundo ordinário.
Estamos tão acostumados com o verbo ver que, mesmo quando a experiência se refere a outros sentidos, usamos, para indicá-la, muitas vezes, a expressão “ver”: “Viu” que música bonita? “Viu” como fazia calor? “Viu” o cheiro daquela coisa? Vivemos, mentalmente, uma dominância do sentido da visão.
E isso porque a visão é o sentido da dominação. Quando chegamos a um lugar novo - tal qual cães que vão sinalizando o território através de sinais odoríferos urinários - nosso primeiro instinto é dar uma volta para ver o que existe naquele lugar. Dificilmente paramos para ouvir, cheirar, apalpar, saborear... Queremos ver! E, de preferência, ver do lugar mais alto para ter uma visão ampla, abrangente, dominadora.
Hoje, mais do que nunca, a imagem é a rainha da comunicação. Quem não é visto, não existe. Nas redes sociais, o ideal é alcançar o máximo possível de visualizações. Uma postagem, em qualquer uma das redes sociais, se não é visualizada, é como se não existisse.
E, como todas sabemos, quanto mais chamativa ao olhar for uma foto, mais visualizações ela terá. Uma postagem sem foto, é muito provável que passará desapercebida nas redes sociais!
Por outro lado, somos incapazes de ver o nosso próprio rosto. Só podemos vê-lo no espelho. Mas o espelho não somos nós. Diferentemente do que muitos pensam, o espelho é apenas o reflexo do nosso rosto, e não o nosso rosto. Muitas vezes esquecemos isso e pensamos que o que vemos no espelho somos nós...

Por isso, talvez, seja verdadeiro o que dizia o Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”. É a ânsia insaciada e insaciável de ver o próprio rosto que nos leva ao desejo infindo de ver imagens que, esperaremos eternamente sem nunca sermos satisfeitos, reflitam o rosto que somos. Mas, feliz ou infelizmente, precisamos nos conformar ao fato de que não teremos jamais a possibilidade de nos divisarmos a nós mesmos tal qual somos. E esse é um desejo eterno que pode nos levar, tal qual novos Narcisos, à morte pela inanição contemplativa do próprio rosto invisível.

domingo, 30 de julho de 2017

Escutar o silêncio.

Quando falamos dos sentidos, é temerário dizer que este ou aquele tem maior ou menor capacidade de despertar sentimentos. Todos eles tocam o mais íntimo de nosso ser e por isso são capazes de fazer soar as cordas mais íntimas da nossa existência.
Mas talvez nenhum deles tenha sido usado de forma tão massiva para produzir e estimular sentimentos como a audição. E o grande canal para isso, é a música. Cada ritmo parece tocar uma tecla de nosso ser. Uma música relaxante nos ajuda a entrar em nós mesmos, a nos situarmos frente ao universo, a colocar em harmonia nossos interior e buscar a sintonia com o exterior. Um samba convida para a festa, a convivência, a camaradagem. Uma milonga é o ritmo perfeito para expressar a dor que vai no coração, as tristezas da vida, os sofrimentos do peão e do trabalhador que tem a sua vida marcada pela penúria e pelo labor. O tango faz descer as lágrimas da perda do amado ou da amada, a tristeza de sentir-se abandonado por quem se ama e a solidão incompreendida. A marcha convida para a luta, para a guerra, para a conquista dos direitos. Quem não se sente entusiasmado ao ouvir soar as notas da Marseillese e seu Allons enfants de la patrie, le jour de gloire ést arrivé... Ou então, a Internacional socialista e “De pé, ó vitimas da fome! De pé, famélicos da terra! Da ideia a chama já consome, A crosta bruta que a soterra.” E um funk, que sentimentos desperta em nós? Talvez nós, que já passamos dos 50, não estejamos acostumados com esse ritmo as letras agressivas que o acompanham. Mas hoje ele é o mais popular nas periferias das grandes e também das pequenas cidades. E especialmente entre os jovens. Talvez seja a única forma que eles encontram para fazer-se ouvir por uma sociedade surda aos seus clamores.
Uma peculiaridade da audição, é o fato de ser um sentido principalmente passivo. Nós dificilmente podemos barrar os sons que chegam até nós. Eles entram nos nossos ouvidos, nos invadem, tomam conta de nós. Quem já não foi acordado pelo som ensurdecedor de um avião a jato passando rasante, ou uma explosão, um tiro... ou pelo grito de um vizinho, de uma criança agredida, de uma mãe que teve seu filho assassinado? Ou pelo grito de gol, de vitória, de alegria! Podemos nos isolar, colocar barreiras, tapar os ouvidos, mas, quando menos esperamos, o som aí está impondo-nos sua verdade.
Mas o ouvido também pode ser educado. E ele é educado, mesmo que nós não nos demos conta. Ele é conformado pela cultura em que vivemos. Nós ocidentais, estamos acostumados a ouvir 12 notas musicais. Nossa escala sonora é duodecimal. Já os gregos, os chineses e os escoceses, eles só ouviam cinco notas. A música árabe tem uma escala de 16 notas. Os indianos, por sua vez, tem um ouvido muito mais apurado e são capazes de distinguir 22 notas musicais. Por isso nós, ocidentais, educados para escutar apenas 12 notas, temos dificuldade em compreender a complexidade da música árabe e da música indiana. Nos escapam praticamente metade dos sons emitidos pelos seus instrumentos e pelas suas vozes.
Mas existe também o som do silêncio. É algo que está se tornando cada vez mais difícil de ser encontrado na nossa civilização cheia de apelos sonoros. Numa cidade grande, é muito difícil poder estar em silêncio. Seja de dia, seja de noite, em nossas casas ou em qualquer outro lugar onde nos encontremos. É preciso sair para longe, fora das cidades, longe da civilização, para poder escutar o silêncio. E como ele fala... Nossos povos nativos são especialistas em cultivar o ouvido para o silêncio. Por isso são capazes de ouvir os sons das flores, das plantas, das árvores, dos animais, dos rios, das pedras... E como eles e elas falam. Com suas vozes próprias, com suas músicas específicas.

No silêncio, tudo fala! Até mesmo aquilo e aqueles e aquelas que nós não gostaríamos de ouvir. É preciso reaprender a escutar o silêncio.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ANDO DEVAGAR...

Ando devagar porque já fui multado. Mais de uma vez... Verdade que nunca foi por exagero. Ainda tenho pontos na carteira para continuar dirigindo. Minhas multas foram daquelas multas idiotas. O limite era 50 sobre a ponte do Rio Gravataí, na Rodovia do Parque. Passei a 63. Demorou mais de três meses, mas ela chegou. Descendo a BR 470, de Carlos Barbosa em direção a São Vendelino, o limite era de 60 por hora e eu fui flagrado, por um radar móvel, aquele tipo “secador de cabelo”. O policial estava escondido atrás de uma árvore, logo depois da curva. E eu a 73 quilômetros por hora. Coisa mínima. Um pouquinho além do limite. Mas o suficiente para ter os pontos na carteira de motorista e uns reais a menos na carteira onde guardo o pouco dinheiro que ganho.
Tem outra multa que ainda estou esperando. Na mesma BR 470, na passagem por Bento Gonçalves. De novo o policial rodoviário escondido atrás de uma curva. Com a federalização, a estrada melhorou muito, há que se reconhecer. Não tem mais buracos, a sinalização é boa, iluminação e radares. Tudo bem... O pessoal que estava acostumado com a buraqueira, agora que a estrada está boa, tem a tentação de recuperar o tempo perdido. Daí a razão dos radares móveis e das multas. Mas a minha multa foi injusta. Verdade que todos dizem isso! Mas eu explico e peço sua consideração. Depois do último pardal fixo, onde a velocidade é de 50, você vê o sinal de que pode andar a 60, depois a 80, aí, 200 metros depois, a velocidade volta a 40. Sem nenhuma razão aparente, 300 metros adiante volta a 60, depois a 80 e, subitamente, depois da curva, lá está a placa de 50 quilômetros por hora. E aí já não há tempo para reduzir a velocidade. O policial aí está, impávido, com o olho na mira acompanhando o deslocamento do carro. O alvo é a placa. Não tem apelo! Só esperar o golpe.
O mesmo ocorre no entorno de Carlos Barbosa, Veranópolis e Vila Flores que também são cruzadas pela BR 470. Não há uma lógica para as velocidades estabelecidas. Parece que juntaram um monte de placas com números diferentes e foram espalhando-as aleatoriamente ao longo do caminho. Essa forma ilógica de dispor as placas parece ser a única lógica plausível no caso.
Mas, e é aí que eu fico ainda mais espantado, é que, se você tenta obedecer à sinalização e rodar nas velocidades estabelecidas, aí você corre um sério risco muito maior que o da possível multa. O risco de ter seu carro abalroado por alguém que vem atrás. Aí estão as placas com seus números implacáveis, você segue a velocidade indicada e atrás vem um, dois, três, vários carros, camionetes, caminhões com dois, três, quatro eixos, bitrens e tudo mais que anda sobre duas, quatro, seis, oito ou não sei quantas rodas, dando luz alta em pleno dia, sinalizando que vão ultrapassar, buzinando, acenando com o braços, insultando sua linhagem materna até a sétima geração, afirmando aos berros que sua mulher sai com todos os homens da cidade e que você não pode mais passar por baixo dos fios de alta tensão, duvidando de sua identidade de gênero, mandando você prá tudo o que é lugar, inclusive aquele... Tudo isso para reclamar que você está andando na velocidade estabelecida para aquele trecho. E todos eles sabem que, atrás da próxima curva, pode haver um policial com um “secador de cabelo” na mão, mirando para você, para eles, para todos nós e que, em breve, a temida multa chegará a nossas casas.
Sinceramente. Não entendo nem uma coisa nem outra. Mas fiz o estoico propósito de que não vou me alterar nem com a ilógica distribuição das placas de velocidade e nem com os intrépidos colegas de volante que sabem que podem ser multados, mas continuam insistindo em andar em velocidades superiores às estabelecidas.

Para me ajudar a manter o propósito, no pen-drive que me acompanha nas viagens, entre outras músicas, a impagável do Almir Satter: “Ando devagar porque já tive pressa...” 

sábado, 15 de julho de 2017

Um novo mundo é possível!

Tempos difíceis os que estamos vivendo. Tão difíceis que se tornam assustadores. Você liga a televisão e, quem aparece? O Trump e seu topete! Você troca de canal e quem te sorri? O Putin. E todos conhecem o sorriso do Putin: não existe. Nunca vi o Putin sorrir. Por que será? Outro canal e agora é o eterno sorriso banqueiro do jovem recém-eleito à Presidência da França. E aí você se pergunta: por que o Macron está sempre sorrindo? Desconfie de quem nunca sorri e desconfie também de quem está sempre sorrindo. Alguma coisa ambos estão tentando disfarçar com seu eterno não-sorriso ou com seu eterno sorriso. Para não ficar só em figuras masculinas: alguém poderia me informar se já viu a Angela Merkel sorrir? Não naquelas fotos de campanha retocadas por sofisticados programas. Numa situação real, alguém lembra de um sorriso da Merkel?
Cansado de notícias internacionais? Pense nas nacionais. É ainda mais assustador. Procuradores vendendo palestras onde prometem revelar de primeira mão informações obtidas através de confissões forçadas. Juízes absolvendo ou condenando não na base de provas, mas de convicções. Deputados e senadores fazendo leilão de seu voto a favor ou contra a cassação de um Presidente ilegítimo que apresenta como principal conquista de seu efêmero governo o aumento do desemprego. E esse mesmo que se faz passar por Presidente comprando votos daqueles que não querem vê-lo cair porque a instabilidade lhes é favorável. São deputados profissionais. Eles são cascudos e sabem que, em rio que tem piranha, jacaré nada de costas. Partidos que afirmam que sua diferença consiste em roubar sem ser flagrado na ilegalidade. Sindicalistas defendendo uma reforma trabalhista que faz os trabalhadores voltarem à condição de escravos. Talvez sonhem em serem promovidos a capitão-do-mato. É um progresso prá trás. Um vereador negro da maior cidade do país furioso porque a universidade mais elitista do Brasil aderiu ao sistema de quotas econômicas e raciais. Empresários que defendem a eficácia da iniciativa privada enquanto se locupletam com o dinheiro roubado do erário público. A polícia agenciando e armando ladrões e traficantes. E, na base de tudo, eleitores que reclamam da corrupção dos políticos enquanto buscam um vereador, deputado, prefeito ou governador para conseguir uma vaga para seu filho no serviço público, na universidade, no hospital...
Em meio a tudo isso fui convidado para, num final de semana, assessorar um encontro de uma pequena congregação de Vida Religiosa no interior de São Paulo. Congregação nova, aprovada há pouco mais de 50 anos. Ostentam o sugestivo nome de “Filhos da caridade” os homens e “Filhas da caridade” as mulheres. Os religiosos e religiosas são poucos. A maioria do grupo é composta de leigos e leigas que vivem o carisma da Congregação.  Além de paulistas de várias cidades, há também cariocas e maranhenses. Há uma senhora que anda apoiada numa bengala. Homens e mulheres já de cabeça branca. Mas também um grupo significativo de jovens com toda a energia da idade. Negros e brancos. Alguns apenas alfabetizados. Outros com curso superior. Casados e solteiros. Trabalhadores e trabalhadoras de vários segmentos e micro e pequenos empresários. E, para aumentar a diversidade, argentinos vivendo no Brasil, um irmão religioso provindo da Tanzânia, outro da Itália, da Índia, das Filipinas e do Timor Leste. E aí a Língua Portuguesa se mistura com o Espanhol, o Inglês, o Italiano, o Tetum, o Suaíli, o Malaio... Pluralidade total! E todos e todas se entendem ao falar a linguagem comum da caridade  no desejo e no compromisso de servir aos mais pobres e necessitados em cada distinto lugar em que vivem. Jovens desempregados na Itália, doentes e anciãos na Tanzânia, órfãos na Índia, feridos na guerra do Timor, moradores de rua nas Filipinas, jovens em situação de risco no Brasil.
Um pequeno sinal, uma pequena experiência. Minúscula, ínfima, invisível na própria cidade em que acontece e que não aparecerá em nenhum noticiário. Mas um sinal, sim, de que um novo mundo é, sim, possível! Sinal de uma Vida Religiosa profética que continua a testemunhar o sonho do Reino de Deus. E sonhar, mais do que nunca hoje, é preciso! Pois sonhar, é o único caminho para sair do pesadelo mundial e nacional que estamos vivendo.

sábado, 1 de julho de 2017

A reforma trabalhista tá na Bíblia!

Não foi o Temer que inventou a reforma trabalhista. Ele faz parte dela. Mas talvez não seja a principal. Ele é a cara visível – e risível, segundo alguns – deste projeto. Mas o projeto não é dele. É anterior a ele. Sua sorte ou azar, dependendo do ponto de vista, foi a de estar no lugar apropriado para apropriar-se de um projeto que outros tantos já costuravam nos socavões do poder que não ficam exatamente em Brasília.
Mas como ele estava no local indicado, no momento indicado e parecia ser o homem indicado, foi alçado à Presidência com a tarefa de levá-la adiante. Não fosse ele, seria outro. E, se não for ele, os verdadeiros donos dos fios que mandam e desmandam, vão tentar colocar outro.
Mas a história sempre foi assim. E falo de história longa. Aquela que no nosso imaginário ocidental parece ser a mais antiga, a história bíblica. Há poucos dias me dei conta que a primeira proposta de reforma trabalhista está no Antigo Testamento. Bem lá no início, no Livro do Êxodo, quando Moisés foi, a mando de Deus, pedir que o Faraó desse o descanso semanal para os escravos hebreus. O Faraó, no lugar de atender as reivindicações, fez uma Reforma Trabalhista: tirou todo e qualquer dia de descanso, aumentou a carga horária diária de trabalho, reduziu o pessoal e aumentou as metas de produção. E ainda tentou convencer os próprios hebreus de que eram preguiçosos e deviam trabalhar mais. Ocupados, não dariam ouvidos a loucos sindicalistas como Moisés.
Para sorte de Moisés e dos hebreus, eles tinham Deus por aliado! Ele ajudou os israelitas a fugir. Mas não foi fácil... Antes teve que usar o terror das pragas para convencer o Faraó e seus capatazes de que deveriam deixar o povo ir em paz. Rãs, mosquitos, moscas, peste nos rebanhos, doenças nos humanos, chuva de pedras que mataram animais e destruíram plantações, nuvens de gafanhotos e três dias de escuridão. A cada praga, o Faraó se arrependia, mas, em seguida, vendo o prejuízo que lhe podia acarretar a folga de três dias que os hebreus pediam, voltava atrás. Foi só com a devastadora morte dos primogênitos que o Faraó finalmente deixou os hebreus partirem. Mas depois se arrependeu, tomou seu exército e foi atrás deles para impedir que atravessassem o Mar Vermelho e saíssem de seus domínios. E dessa parte da história todos lembram o fim...
Voltando à reforma trabalhista de 2017: quantas e quais pragas do Egito serão necessárias para que os faraós neoliberais adoradores do deus-mercado se convençam a deixar o povo descansar, pelo menos uma vez por semana? Oxalá Deus não tenha endurecido seu coração a ponto de exigirem a morte dos próprios primogênitos e, num gesto de insana teimosia, deixarem-se tragar pelas revoltas águas do Mar Vermelho.