segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Jesus não crucificou a Pôncio Pilatos!


Há duas afirmações do senso comum que precisam ser postas em questão. A primeira, a de que religião e política não se discutem. E muito menos em família ou com os amigos. Afinal, muitos de nós rompemos relações com familiares e nos afastamos de pessoas com as quais tínhamos amizade por causa de diferenças religiosas e políticas. Segundo esse pensar comum, que nasce de experiências às vezes dolorosas, cada um tem sua opção política e sua escolha religiosa e ninguém tem o direito de nela interferir.

O argumento pode ter até uma razão prática. Mas não se sustenta. E isso pela natureza dos dois temas em questão. Tanto a religião como a política são realidades sociais. E as opções que cada indivíduo faz têm consequências não só para ele, mas para toda a sociedade.

A religião, por definição, é a fé vivida de maneira comunitária. Não existe religião de uma só pessoa. A religião – e todas as religiões sem exceção! – são sistemas de sentido compartilhados que visam dar razões à existência e à coexistência. Os valores e comportamentos religiosos, queira o indivíduo ou não, têm incidência social. Por isso podem e precisam ser discutidos.

Da mesma forma a política. Ela é o arranjo consensuado e legitimado de regular as relações sociais. Portanto, toda opção política pode e deve ser discutida, pois a opção de cada um afeta a existência de todos os demais membros da sociedade.

O que podemos questionar é o modo como fazemos estas discussões. Muitas vezes, prevalece a vontade de impor a própria opção religiosa ou política sobre as outras pessoas e a indisposição para ouvir o argumento do outro. Nesse caso, o entrave não está no objeto de discussão, mas no modo como ela é conduzida.

A outra afirmação do senso comum que precisa ser superada é a de que religião e política não se misturam. Primeiro, por um dado prático. Se olharmos a vida política do Brasil e da América Latina nas últimas décadas, veremos que religião e política se entrelaçam cada vez mais intimamente. Para o bem ou para o mal. Mas é um fato que não pode ser negado.

Segundo, religião e política se mesclam também por uma questão conceitual. Com olhares e objetivos diferentes, estes dois âmbitos da existência tratam, como dissemos acima, da mesma realidade: a convivência social. A religião dá o sentido. A política organiza esse sentido na convivência prática. Inevitável que os dois universos se toquem e precisem dialogar. Não fazê-lo, acaba criando uma sobreposição às vezes esquizofrênica.

Para os cristãos, esse diálogo não é apenas um dado prático ou teórico. É uma questão de fé. Afinal, Jesus, a fonte e referência do cristianismo, foi morto em consequência de um julgamento político. Ele foi crucificado por ter-se afirmado como Rei dos Judeus em contraposição ao Imperador Romano. Por isso morreu na cruz e, todos os anos, a Igreja o celebra como Rei do Universo.

Mas atenção! É bom lembrar a muitos cristãos que Jesus não foi o agente crucificador. Ele foi o crucificado. Quem o mandou torturar e matar foi um general romano. Rezamos no creio que Ele “padeceu sob Pôncio Pilatos” e não que Ele “crucificou a Pôncio Pilatos”. Sempre é bom lembrar isso! Principalmente nestes tempos sombrios em que pessoas, em nome de Deus, ostentam instrumentos de tortura e morte chegando à aberração de chamá-lo de “General Jesus Cristo”.

Jesus é Rei, sim. Mas é o rei que entrou em Jerusalém montado num jumento e não num tanque de guerra. Sua única arma foi o perdão e a misericórdia. E seu trono é a cruz. Apresentar Jesus Cristo como um Rei guerreiro, rodeado de soldados sedentos de sangue e armados até os dentes, prontos para matar, não é apenas um desconhecimento da pessoa de Jesus. É pecado, é blasfêmia.

Que deixemos reinar sobre nós a imagem de Jesus, o Rei da Paz que nasce da Justiça.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Que venha o meteorito!





Que venha o meteorito! É uma expressão cunhada e repetida por um colega meu diante da irresponsabilidade humana para com o meio ambiente. Sem pudor e muito menos responsabilidade, utilizamos e abusamos dos recursos naturais e estamos conduzindo o Planeta Terra a uma catástrofe ecológica sem precedentes. E, com insana estupidez, agindo assim, a humanidade está programando a sua própria extinção. E essa catástrofe, antes que chegue à culminância, causará muita dor e sofrimento à espécie humana. Então, para evitar mais sofrimento, que venha logo o meteorito!
Tomando o mote do colega e vendo a deterioração não só do meio ambiente, mas das relações humanas como um todo, também tenho a tentação de desejar que esse fim chegue logo. Ao invés de aprendermos com as gerações que nos precederam, parece que queremos repetir os piores erros do passado…
Com efeito, a humanidade caminha em direção a uma concentração de riqueza nas mãos de poucas pessoas e empresas. Enquanto isso ou, por causa disso, bilhões de seres humanos têm suas vidas ceifadas ou reduzidas drasticamente pela falta do básico: água, comida, saneamento, casa, de atendimento à saúde. E ainda empilhamos milhares e milhares de mortos de forma absurda em guerras que têm como única justificativa a acumulação de mais e mais riqueza por parte de poucos. Que venha logo o meteorito!
Depois de tanto esforço de gerações e gerações para construir sociedades democráticas onde as pessoas, mesmo sendo diferentes e pensando diversamente, possam conviver em paz respeitando-se mutuamente, renascem vozes que exaltam o fascismo, o nazismo, o racismo, a misoginia, os torturadores e assassinos que mancham a história da humanidade e de nossas nações. Que venha logo o meteorito!
Quando olhava a realidade de seu tempo, Jesus teve a mesma tentação. É o que nos atestam os Evangelhos. Ele também desejou que a dor e o sofrimento de seu povo terminassem logo. Era demais aguentar tudo aquilo. Mas há um detalhe importante. A diferença bem declarada por Jesus no seu discurso apocalíptico, é a de que a catástrofe não é o fim último. O desastre provocado pelos humanos e que tem consequências cósmicas, é passageiro. Ele não é um fim em si mesmo e nem dura para sempre. Para além da catástrofe está a justiça de Deus já proclamada pelos profetas, entre eles Malaquias, quando afirma que “virá o dia, abrasador como fornalha, em que todos os soberbos e ímpios serão como palha; e esse dia vindouro haverá de queimá-los”. Para aqueles que, como lembra Jesus, permaneceram fiéis e foram perseguidos por causa da justiça de Deus que é a defesa dos empobrecidos e da criação, “nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas”.
Que esse dia chegue logo! De preferência, antes que venha o meteorito!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O boom religioso e a falta de fé


Para quem circula em meios eclesiásticos, é muito comum ouvir-se o discurso de que o grande problema da sociedade é a falta de religião. E que este afastamento da prática religiosa seria a fonte de todos os males que hoje afligem a sociedade brasileira, desde o desemprego até o aborto e a calvície!

Ledo engano provocado por uma falta de atenção – ingênua ou proposital – em relação ao que está acontecendo na sociedade. No Censo 2010, apenas 8% dos brasileiros se declararam “sem religião”. Mas a maior parte destes 8% afirma alguma forma de crença religiosa fazendo com que o índice dos que se declaram ateus, no estrito senso da palavra, seja ínfimo.

Olhando por outro lado, vemos que o discurso religioso invade todos os âmbitos de nossa convivência. Basta ligar a televisão para ver dezenas de canais transmitindo, 24 horas por dia, programação religiosa. Na internet, então, é o conteúdo que mais abunda. As escolas se tornaram palco de disputa entre igrejas e religiões. Hospitais e praças servem de palco a consoladores e aliciadores das mais variadas crenças e denominações. Música e cinema garantem sucesso e lucro falando de Deus. No mundo político, temos os que querem colocar “Deus acima de tudo” com a força das armas e de fake news.

Isso que ainda não falamos de igrejas. Se algumas, como as tradicionais paróquias católicas estão esvaziadas, outras, tanto católicas como pentecostais, regurgitam de fieis. Isso sem falar dos centros espíritas e africanistas por onde circulam cada vez mais pessoas de todos os estratos sociais e religiosos. E as novas formas de religião que surgem a cada dia fazendo com que o registro de religiões cresça a um ritmo superior ao das outras formas de comércio e à indústria que patinam em meio à crise.

Diante destes fatos, nossa opinião é de que o problema não é a falta de religião. O problema é a falta de fé. Religião é um rito externo. A fé, uma disposição interior que impulsiona a vida em direção a Deus. A maioria das religiões que hoje vemos por aí preocupam-se apenas com o bem estar afetivo ou financeiro de seus frequentadores ou com a sobrevivência da instituição e de seus pastores. Mas tem muita dificuldade em dar um sentido à vida das pessoas e da sociedade como um todo.

Florescem, como afirmou o Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo para a Amazônia, “a ‘religião do eu’ hipócrita com os seus ritos e as suas ‘orações’: muitos dos seus praticantes são católicos, confessam-se católicos, mas esqueceram-se de ser cristãos e humanos, esqueceram-se do verdadeiro culto a Deus, que passa sempre pelo amor ao próximo”.

Diagnóstico do Papa Francisco que segue fielmente a reação de Jesus diante dos sacerdotes do templo de Jerusalém, os saduceus, que, ao invés de alimentar as esperanças do povo na luta pela libertação, assim como o haviam feito no passado os irmãos Macabeus, preocupam-se apenas com as leis e os ritos de seu sistema religioso. Diante da abundância de religiões que ocultam e abafam a ânsia de vida dos pobres e sofredores, é preciso ouvir a voz de Jesus que lembra que a verdadeira fé é a do Deus da vida que quer a vida para todos e todas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Ser feliz é tudo o que se quer!


Ser feliz é o que todo ser humano deseja. Desde o nascimento até a morte. De manhã, de tarde, de noite. No trabalho, no descanso e no lazer. Na vida pessoal, familiar e social. No comer, no vestir, no namorar.

Da busca pela felicidade nascem religiões, filosofias e ideologias. Ela faz nascer sonhos, compromissos e desilusões. Dela brotam as entregas, as guerras e as paixões, a indiferença, a santidade e a solidão.

Mas, o que é felicidade? Difícil de definir. A começar pelas imagens de felicidade com as quais somos bombardeados diariamente. Existe a felicidade da família reunida ao redor da mesa saboreando um pote de margarina ou um iogurte. Ou a do carro novo comprado em 60 vezes sem entrada. A felicidade do crediário das Casas Bahia! A da cerveja feita de cereais não maltados que atrai todas as mulheres da praia. E, a mais recente e tecnológica, a do smartphone de última geração que é tão rápido e tem tantas funções que dispensam o seu feliz comprador de agir e pensar.

Mas como a inteligência do celular, todas essas felicidades são artificiais, imprevisíveis e efêmeras. Prova disso é o consumismo que rege a economia e a cultura do nosso tempo. Ele ao mesmo tempo é gerado e se nutre do círculo vicioso de compra-insatisfação-compra que só termina quando o dinheiro disponível e as possibilidades de financiamento se esgotam. E da falta de recursos para financiar a felicidade artificial surge a depressão e o suicídio, dois males endêmicos de nossos dias.

Há alternativa para isso? Sim. E ela é bem antiga. Já foi pregada há dois mil anos por Jesus e retomada recentemente pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate Sobre a Santidade no Mundo Atual. Trata-se das “bem aventuranças” ou, mais propriamente traduzindo, das “felicidades”. Elas nada mais são do que uma receita para alcançar a felicidade no quotidiano e o caminho da vida plena.

A dificuldade para acolher e praticar tal receita reside tanto nos seus ingredientes como na forma de preparação. Afinal, num mundo que apresenta a riqueza como elemento fundamental para alcançar a felicidade, como acreditar que felizes são os pobres? Num mundo que exalta a força e o poder, como dizer que é a mansidão que faz as pessoas felizes? Numa cultura que apresenta como herói aos senhores-de-guerra ou os que fazem “arminha”, como dizer que a felicidade pertence aos pacíficos. Justiça, misericórdia, pureza de coração, não fazem parte do receituário da felicidade de nosso tempo e de nossa cultura. Mas o são da pregação de Jesus. E ele não era cego para a realidade de seu tempo.

Sabendo da dificuldade de sua proposta ser aceita, Jesus coloca como último sinal de felicidade o fato de alguém ser perseguido, injuriado e caluniado por causa dessa sua contracultural receita de como construir uma vida e um mundo feliz. Esse é, como lembra o Papa Francisco, o caminho para a santidade. E ele não é extraordinário, mas ordinário e pode ser realizado por qualquer pessoa.

Talvez para pensarmos o nosso caminho rumo a uma vida feliz, a Igreja coloca juntas a festa de todos os santos e a festa dos mortos. Diante da realidade inelutável da finitude, cabe-nos perguntar: estou sendo feliz nesta vida que estou levando? A margarina de tal marca, o carro com tantos itens de conforto, a cerveja com este ou aquele sabor, o celular desta ou daquela marca, estão me dando a felicidade ou é melhor buscá-la na proposta de Jesus?

Que nesta festa de Todos os Santos e dos Finados, nos demos a possibilidade de repensar os nossos sonhos e os respectivos caminhos para alcançar a felicidade à qual todos e todas somos chamados.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Os pecados dos padres sinodais


Nesta semana a Igreja Católica Romana está encerrando o Sínodo para a Amazônia. Depois de um longo processo de escuta das várias realidades daquela região, bispos, delegados, consultores e convidados foram reunidos, durante três semanas, em Roma, sob a coordenação do Papa Francisco, para pensar “novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Ainda não conhecemos as decisões que serão expressas no documento final. Oxalá sejam esperançadoras para a Igreja e para os povos que vivem naquela região e para todo o bioma amazônico, tão fundamental para a vida no planeta Terra.

Com o Papa Francisco cremos que “o tempo é mais importante que o espaço” e que, por isso, o processo é mais importante que o resultado. E o grande ganho do caminho que levou a Roma foi, sem sombra de dúvidas, a prática da sinodalidade. Ou seja, de uma Igreja que, desde as mais remotas comunidades da selva amazônica até a Basílica de São Pedro, foi capaz de pôr-se a caminho para ir ao encontro de todas as pessoas e sentar-se em círculo para conversar e tomar decisões em conjunto. Foi um exercício de uma Igreja em saída e de uma igreja toda ela sinodal.

Além disso, foi um exercício de encarar de frente os problemas internos da comunidade católica e os desafios que a realidade socioambiental apresenta para os homens e mulheres de fé. E essa coragem de não escamotear o real fez com que o sínodo, além de despertar paixões no interno da comunidade católica, também alcançasse repercussões em toda a comunidade cristã e para além dela. É sabida de todos a reação do governo brasileiro e dos setores da sociedade que lucram com a destruição da Amazônica diante do Sínodo. Neste sentido, foi um sínodo eminentemente ecumênico e resgatou o objetivo dos sínodos tradicionais da Igreja: colocar a fé cristã em diálogo com os grandes problemas da realidade.

Dentro da Igreja, duas posturas desenharam os extremos diante do Sínodo. De um lado, aqueles e aquelas que, cientes dos erros cometidos no passado, pedem perdão e buscam novos rumos para o agir eclesial. De outro lado, aqueles e aquelas que, aferrados a uma compreensão da verdade e convencidos de que seu modo de agir é o único possível, mais do que preocupar-se com a evangelização, preocupam-se com a possibilidade de ter que mudar. E, ao invés de combater os males que afetam a igreja, o povo e o bioma amazônico, juntam pedras e paus para atirá-los contra seus irmãos de Igreja e de fé.

São duas atitudes clássicas dentro do cristianismo. E, não por coincidência, estão retratadas no evangelho da liturgia deste fim de semana. De um lado, o fariseu que se orgulha de sua ortodoxia e de sua ortopraxia, mas não tem fé, pois acha que pode se salvar por si mesmo. Do outro, o publicado que, sabendo-se pecador, confia na misericórdia de Deus.

O Sínodo para Amazônia e os debates por ele suscitados nos fazem lembrar que, dentro de cada um de nós, pode existir o publicano e pode existir o fariseu. Que saibamos reconhecer nossos erros e começar tudo de novo, pois, como nos dizia São Francisco, até agora, pouco ou nada fizemos.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A justiça dos homens e a justiça de Deus


A história é bastante conhecida. Mas precisa ser lembrada, pois é a história da justiça. Quando ele nasceu no pequeno vilarejo de Mvezo, em 18 de julho de 1918, recebeu o nome de Nelson Rolihalahla Mandela. Seu pai, analfabeto como a grande maioria da população sul-africana da época, era um líder tribal tradicional. Dentro do sistema de governo imposto na região pelo Império Britânico, seu papel era o de fazer a mediação entre o governo colonial e a população nativa. Era uma mediação tensa, pois os brancos, que contavam com aproximadamente 10% da população, dominavam 90% das terras e toda a produção mineral, a grande riqueza do país.

O destino de Nelson era o de casar-se com uma jovem indicada por seu pai e sucedê-lo na chefia tribal que, em comparação com a grande maioria da população negra, tinha uma vida relativamente confortável. Mas Nelson era um jovem atento à realidade de seu país e com seu olhar observador percebeu que aquele modo de organizar a sociedade não era justo. Em busca de melhores horizontes, mudou-se para a capital do país, ingressou na Universidade – a única para negros na África do Sul  - onde conheceu outros jovens que, como ele, sonhavam com um país livre da dominação colonial e do apartheid que, naquele momento, deixava de ser uma realidade vivida para ser fundamentada em leis.
Sua insurgência contra a discriminação dos negros levou-o a ser expulso da Universidade. Depois de muita luta logrou formar-se advogado e continuou, agora em outros parâmetros e com outros instrumentos, na batalha por melhores condições de vida para seu povo. Sua obstinação custou-lhe caro. Teve que fugir do país e, retornando, viver na clandestinidade até que, em 1963, foi preso e condenado à prisão por traição à Pátria.

De 1964 a 1990, Nelson Mandela foi prisioneiro do Estado sul-africano. Primeiro em Roden Island, depois em Pollsmor e, finalmente, em Victor Verster. Mesmo sem perspectivas de recuperar a liberdade, nunca renunciou a seu sonho de ver seu povo africano livre em seu próprio país.

Com o tempo, a luta da população africana organizada no Congresso Nacional Africano e a pressão internacional, o regime do Apartheid tornou-se insustentável. No final de 1999, o governo sul-africano legalizou os partidos políticos, inclusive o Congresso Nacional Africano e, no dia 11 de fevereiro de 2000, Nelson Mandela deixou a prisão. Em 1993, recebeu o Nobel da Paz. Comprometido com a paz, foi candidato a Presidência do país. Eleito, conduziu a refundação do país num processo de reconciliação nunca antes vivido em nenhum lugar do mundo.

Lembrar a história de Nelson Mandela, é perguntar-se pelo que entendemos por justiça. O sistema legal da África do Sul condenou-o à prisão. Mas era um sistema legal baseado na justiça dos homens brancos detentores da riqueza construída à custa da vida de milhões de negros africanos. Foi essa justiça que condenou Mandela.

Mas houve uma justiça que absolveu Mandela. Foi a justiça da humanidade que crê que toda pessoa tem direitos inalienáveis por ser uma pessoa humana. Essa é a justiça de Deus. A justiça que não esmorece ante os juízes poderosos que arrogantemente querem calar a voz da viúva que clama pelos seus direitos. Essa é a justiça que Jesus nos aponta no Evangelho. Que tenhamos os ouvidos atentos ao seu clamor que é o clamor de Deus.
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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Mobilidade, gratidão e salvação


A mobilidade faz parte da condição humana. Mais: poderíamos dizer que o que nos tornou humanos foi o fato de querer ir mais longe. Afinal, o que impulsou nossos ancestrais a deixar de andar de quatro patas para tornarem-se bípedes? Facilitar o deslocamento, com certeza, foi um dos fatores. De pé se vê mais longe e o andar se torna mais ágil e rápido para buscar comida, localizar um melhor lugar para viver, fugir dos inimigos, encontrar-se com os outros... Todas necessidades básicas que moveram os primeiros home sapiens e a humanidade durante trezentos mil anos de história e continuam a impulsionar, hoje, milhões e milhões de pessoas a saírem de seus locais de origem e buscar outros espaços de vida.

De uma forma ou de outra, todos somos migrantes ou descendentes de migrantes. De primeira, segunda, terceira ou mais gerações. É só olhar para trás na história dos antepassados. Às vezes, basta pronunciar o sobrenome para saber que somos migrantes ou descendentes de migrantes. O sotaque e a cor da pele nos denunciam. Por que, então, tanta dificuldade em aceitar os migrantes em nossa comunidade, em nossa cidade, em nosso país?

A palavra técnica para isso é xenofobia. Originada do grego, ela significa, literalmente, o medo ao diferente. De fato, o migrante que nos mete medo é sempre o estranho ao nosso mundo. Se é igual a nós, nem é considerado imigrante, mesmo que tenha vindo de muito longe. Mas se a sua cor de pele, sua língua, sua religião, sua cultura, seus costumes, são diferentes dos nossos, as reações xenofóbicas não tardam a manifestar-se.

O que nos mete medo, não é a mobilidade, mas a presença entre nós do diferente. Parece que isso faz parte da condição humana. Já no tempo de Jesus era assim. Os judeus tinham muita dificuldade em aceitar quem não pertencesse ao seu povo. O ódio aos romanos era óbvio. Roma era o Império estrangeiro que invadiu, espoliou e mantinha sob ferrenha dominação o povo judeu. O medo aos cananeus também, já que Israel havia se apossado de suas terras. Já o medo aos samaritanos era menos explicável. Judeus e samaritanos faziam parte do mesmo povo. E cultuavam o mesmo Deus. O que os diferenciava era a presumida pureza de sangue dos judeus e o lugar de culto e alguns costumes particulares.

Várias vezes nos evangelhos Jesus apresenta um samaritano como modelo de fé. A passagem mais conhecida é a do chamado “bom samaritano”. Mas existe também a passagem do leproso samaritano que, junto com outros nove leprosos judeus, foi curado por Jesus. Dos dez, apenas o samaritano voltou para agradecer. Só ele reconheceu em Jesus a presença salvadora de Deus. Bem diferente dos leprosos judeus que, também curados por Jesus, continuaram encerrados em sua convicção nacionalista e xenofóbica de que os privilégios de Deus são exclusivamente para eles.

Curados, os nove judeus nacionalistas, ortodoxos e xenófobos foram ao templo. Mas Deus não estava no templo. Deus estava em Jesus. E foi só o samaritano estrangeiro, herético e longe de sua terra que o encontrou e foi salvo por sua fé.
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